Dúvida

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 2 votos

Vote aqui


Locais de filmagem


Sinopse

A escola católica St. Nicholas, no Bronx (NY) entra num turbilhão quando a madre-diretora começa a suspeitar que um padre está se envolvendo além da conta com um de seus alunos.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

05/02/2009

Dúvida, o perfeito título desta história, é uma coisa que a aparentemente onisciente madre Aloysius Beauvier (Meryl Streep) não se permite alimentar. Ela nunca tem nenhuma quando castiga os alunos da escola em que é diretora, a St. Nicholas. Move-se como um rato, sorrateira, nos corredores da capela, flagrando aqueles que dormem ou conversam durante a missa. Pressiona seus professores para que delatem seus alunos malcomportados. Exige rigor, vigilância implacável e punição exemplar, como uma representante da Inquisição do século XV extraviada no Bronx novaiorquino, no ano de 1964.

Em todo o mundo e nos EUA, esse início dos anos 60 era um momento de mudança. Mesmo a milenar igreja católica era varrida por novos ventos com um papa reformista, João XXIII. Fora dos conventos, o movimento pelos direitos civis cravava algumas conquistas. A St. Nicholas, por exemplo, acaba de admitir seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster).

O movimento civil também incorporava o feminismo, que não parece, no entanto, penetrar os muros da escola. A alta hierarquia ali dentro é toda masculina. Apesar de toda a sua energia, madre Aloysius só tem autoridade sobre suas freiras e os alunos. Uma cena que demonstra à perfeição essa diferença entre os sexos é a mesa da refeição. A dos padres e do monsenhor é farta em carne, bebida alcoólica e cigarros depois. Conversas e risadas não faltam. A das freiras é marcada por pratos frugais e um silêncio sepulcral. E isto não reflete apenas a dureza da diretora, como também a desenvoltura que a hierarquia masculina demonstra para reinterpretar as regras.

É entre um homem, padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), e uma mulher, madre Aloysius, que vai se travar a grande batalha da história – e ela tem a ver com sexo e muita coisa mais. Alegre, espirituoso, padre Flynn está antenado com os novos tempos na igreja. É o que, no Brasil, se chamaria de “progressista”. Ele dedica bastante tempo a conversas particulares com o aluno negro e isto chama a atenção de uma jovem freira, a irmã James (Amy Adams).

A suspeita de que algo além de orientação espiritual esteja ocorrendo entre o padre e o aluno serve sob medida à madre para deflagrar uma guerra. E aí está o fascinante cerne deste filme, que explora as sutis diferenças entre progressismo e conservadorismo, deveres e direitos, culpa e inocência, procurando ir além do maniqueísmo que quase sempre contamina as histórias morais no cinema.

Baseado numa peça premiada com o Pulitzer e quatro Tonys, adaptada para o cinema e dirigida por seu próprio autor – John Patrick Shanley -, Dúvida desdobra-se como um grande drama sobre responsabilidade, ética, limites e a impossibilidade de certezas em determinadas situações. Há diálogos poderosos entre os principais atores desta disputa, como a madre, o padre e a freirinha que inocentemente desencadeou tudo isso. Todos eles muito justamente indicados ao Oscar, assim como Viola Davis e o roteiro adaptado.

Um momento especialmente luminoso é a única cena em que a mãe do menino, sra. Miller (a espetacular Viola Davis), expõe suas próprias posições sobre o dilema do filho. Aí, ela introduz na discussão, até então apenas moral e religiosa, um pragmatismo muito peculiar e igualmente compreensível, dadas as consequências que todo este caso pode ter no futuro de seu filho. Aqui está um duelo de duas grandes atrizes. Não é fácil contracenar com a veterana Meryl Streep e Viola Davis o faz com uma grandeza verdadeiramente dilacerante.

Quem espera respostas seguras ao final de Dúvida perde seu tempo. O filme é conduzido de maneira a que todos exponham suas idéias, guardando também uma certa dose de mistério. Cada um terá de decidir por si mesmo se madre Aloysius está genuinamente protegendo um de seus alunos ou sendo preconceituosa. Cada um optará, também, se existe apenas uma verdade possível.

Não custa nada refletir também sobre um fato extrafilme: quando este texto foi escrito, em 2005, estavam no auge os escândalos de pedofilia envolvendo diversos padres católicos nos EUA, que culminaram em indenizações às vezes milionárias, caso de Boston. Olhando para os anos 60, o filme medita sobre onde algumas situações podem, ou não, ter começado, por conivência de alguns.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança