Um Conto de Natal

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Sinopse

Uma família reúne-se para o Natal. Na mesa, além dos ressentimentos passados, vai se discutir a necessidade de um dos membros doar a medula para a mãe (Catherine Deneuve).


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Crítica Cineweb

24/12/2008

No cinema de Hollywood, Natal é sempre igual: a época do ano quando as famílias se reúnem para trocar acusações mútuas e acertar as contas com o passado. Para o fator lágrimas funcionar, um dos personagens está com uma doença terminal, e os demais tentam ‘tocar a vida’ para agradar ao doente, embora no fundo chorem quando montam a árvore de Natal. Um Conto de Natal possui todos esses elementos – mas há um diferencial: este filme é francês, por isso, é um alívio não ser o típico filme natalino.

A matriarca, Junon (Catherine Deneuve, que recebeu um prêmio especial por este trabalho em Cannes), está com um tipo raro de câncer e depende de um transplante para sobreviver. Seus possíveis doadores são os parentes mais próximos – ou seja, filhos e netos. Mas o fato de a família não se dar muito bem, ter ressentimentos e frustrações do passado, dificulta a situação.

Depois de uma série de exames, descobrem-se os possíveis doadores: Henri (Mathieu Amalric), o filho do meio, e Paul (Emile Berling), o neto depressivo e suicida. Os prospectos não são nada bons para Junon, uma vez que Henri foi banido da família pela irmã mais velha, Elizabeth (Anne Consigny) e sempre teve uma relação bastante tensa com a mãe.

Dirigido com vigor por Arnaud Desplechin (Reis e Rainha), a partir de um roteiro assinado por ele e Emmanuel Bourdieu, Um Conto de Natal é um filme de difícil classificação. Há momentos de comédia, bem como de drama e sentimentalismo. O cineasta transita por diversos registros e técnicas – até teatro de marionetes aparece na tela –, acrescentando camadas aos personagens e suas tramas.

Desplechlin nos lembra de que somos protagonistas de nossas vidas, mas coadjuvantes das vidas das outras pessoas. Assim, todos aqui têm seus momentos em primeiro plano para encenar seu próprio drama. Sylvia (Chiara Mastroianni), por exemplo, a mulher do filho mais novo, Ivan (Melvil Poupaud), tem uma história de amor mal resolvida com o primo dele, Simon (Laurent Capelluto). Só agora ela descobre ter sido privada da chance de escolha entre os dois.

A questão da doação da medula pelo filho mais detestado também levanta um ponto interessante. Um Conto de Natal lembra que somos unidos pelo sangue, mas ao mesmo tempo, podemos renegar a família como um transplantado rejeitando o novo órgão. Um diálogo entre Junon e seu filho odiado, de quem agora tanto necessita, traz à tona a crueldade querege a relação entre os dois. Ela lembra o filho de quanto o odeia. Ele foi concebido para salvar a vida do irmão mais velho há muitos anos, mas o transplante não funcionou, o primogênito morreu. Pela vida toda, Henri foi culpado por isso. Só que agora repete-se uma situação parecida, entre a mãe e o filho, que não esconde que também nunca gostou dela.

Apesar de sua longa duração (duas horas e meia) e sua verborragia tipicamente francesa,Um Conto de Natal consegue, talvez exatamente por esses dois fatores, colocar o público dentro da reunião familiar. Não é como se assistíssemos a um final de semana entre família, é como se fossemos um dos convidados, compartilhando as dores e alegrias dessa convivência.

Como em seu Reis e Rainha, o diretor não tem medo de usar elementos que nas mãos de outros cineastas pareceriam exibicionismos desnecessários. Com citações de Nietzsche a Shakespeare, passando por Hitchcock, e atores falando diretamente para a câmera, Desplechin lembra da complexidade da vida, em especial, aquela em família, apontando que a convivência depende mais de abrir mão de algumas coisas do que de impor os próprios desejos.

Alysson Oliveira


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