Feliz Natal

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País


Sinopse

O recluso Caio visita sua família durante o Natal. O reencontro traz à tona mágoas e problemas do passado. Não será fácil lidar com a mãe, o irmão e o pai dessa família tão problemática.


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Crítica Cineweb

19/11/2008

Há um momento nesta estréia na direção do ator Selton Mello que resume bem o espírito da família problemática que protagoniza o filme. Mércia, a matriarca desequilibrada, toma a frente no discurso no almoço de Natal, falando sobre a importância da data, de como o amor ao próximo vale mais do que a troca de presentes. E termina cantando um melancólico “Parabéns a você” para, em suas palavras, “o aniversariante do dia” – mas, nesse instante toda a família já debandou e ela está sozinha à mesa.

Interpretada com brio por Darlene Glória, Mércia é só um dos membros de um clã emaranhado em melancolia e solidão – cada um a seu modo. Talvez por ser aquela que perdeu de vez o contato com a realidade, ela é a que menos se importa com as aparências que seu filho Theo (Paulo Guarnieri) e nora, Fabiana (Graziella Moretto), tentam manter. Na ceia de Natal, conturbada por natureza, e ainda mais complicada com o retorno da ovelha-negra da família, Caio (Leonardo Medeiros), a matriarca solta palavrões e implora por carinho e atenção dos filhos.

A chegada de Caio, por sua vez, representa a necessidade de rever o passado – que sempre todos tentaram varrer para debaixo do tapete. Ele vive distante de todos, trabalhando um ferro-velho que montou numa cidade do interior. A volta à capital tem mais a ver com seus antigos fantasmas pessoais do que com saudades da família. São feridas distintas que o consomem.

Com roteiro assinado por Selton e Marcelo Vindicatto, Feliz Natal vai fundo na máxima tolstoiana de que as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira. Aqui, não há muita chance para redenção. Este é também um filme sobre a perda da inocência. Cada personagem tem seu drama muito bem delineado e de forma bastante convincente a ponto de humanizá-los, não transformá-los em monstros. Embora, em alguns momentos, suas atitudes possam ser bem monstruosas uns com os outros.

Fabiana, infeliz e insegura, desconta nos filhos, marido e sogra a sua insatisfação, ao perceber que está deixando a vida escorrer pelos dedos. Já seu marido parece ter desistido de vez de cuidar de si mesmo e da família, deixando-se levar pelos problemas – embora seja o pilar de sustentação dos outros. O pai, Miguel (Lucio Mauro), está casado com uma garota que tem idade para ser sua neta. Mas é em Mércia e Caio que recai o peso maior. Ela busca nele tudo aquilo que nenhum dos outros lhe dá, sem perceber que ele não tem nada de especial, que também é frágil.

Desde sua primeira exibição no Festival de Paulínia (de onde saiu com prêmio de direção, atriz coadjuvante – dividido entre Darlene e Graziella – e uma menção especial), em julho de 2008, muito se falou das influências em Feliz Natal – na maioria das vezes, criticando-as. Uma das mais fortes é o cinema argentino – especialmente O Pântano, de Lucrecia Martel – seguida de John Cassavetes e seu cinema construído sobre personagens, e Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho. Porém, Selton é sagaz o bastante para se apropriar de influências sem deixar que elas o dominem. Também há uma forte ressonância de Nelson Rodrigues – ao retratar o disfuncionalismo da família burguesa – e Tchekhov – que em seus contos pintou miniaturas capazes de encher um mundo inteiro.

Muito condizentes com essas opções de narrativa e personagens estão a fotografia, montagem e trilha sonora. Assinada por Lula Carvalho (Tropa de Elite), a fotografia, muitas vezes com uma câmera na mão leve que segue os atores, e com iluminação natural do ambiente, traduz em imagens, cores e texturas o desconforto dos personagens. Já a trilha, assinada pelo músico e produtor Plínio Profeta, é capaz de criar climas sem ser intrusiva ou excessiva – pelo contrário.

O “feliz” do título é pura ironia, pois jamais haverá qualquer chance de felicidade para estes personagens. Darlene Glória brilha como não tinha chance de fazer há muito tempo. A sua personagem aqui é como uma releitura, décadas depois, daquela que fez em Toda Nudez Será Castigada (73) – uma das maiores interpretações do cinema brasileiro. Boa parte do mérito é dela, claro, mas outra parte pertence ao diretor, que estréia com a segurança e um comando da linguagem cinematográfica que muitos veteranos não atingem depois de décadas de profissão.

Alysson Oliveira


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