O Tigre e o Dragão

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Crítica Cineweb

13/02/2003

Transformar um filme de artes marciais, gênero geralmente associado à violência, numa fábula poética em que o poder dos diálogos importa mais do que o das espadas e as lutas mais parecem seqüências de dança - especialmente porque são, quase todas, protagonizadas por mulheres, capazes de voar sobre os telhados como o mais leve dos pássaros - é um desafio e tanto. Em O Tigre e o Dragão, esse desafio foi aceito e cumprido com a tenacidade de um mestre zen-budista pelo diretor Ang Lee, que firmou, além do mais, um novo recorde, ao acumular dez indicações ao Oscar/2000 - o máximo conseguido até agora por um filme estrangeiro. Destas indicações, venceu quatro: melhor filme estrangeiro, direção de arte, fotografia e trilha sonora.

Alguns podem estranhar a classificação como obra estrangeira, modalidade em que o filme venceu duas premiações nos EUA, o Globo de Ouro e o National Board of Review. Afinal, mesmo nascido em Taiwan, Lee está radicado na América desde 1978, e foi lá que se estabeleceu como cineasta. Mas, para dar este novo e ousado passo em sua carreira, teve de voltar às origens. Filmou em locações na China, em idioma local (no caso, o mandarim), voltando-se para um dos gêneros mais tradicionais e populares, o das artes marciais, adaptando uma história ambientada no início do século XIX, com atores da região. Um empreendimento logístico de grande porte, que atingiu um orçamento de US$ 15 milhões - que parece até modesto, diante do espetacular resultado visual.

Com a mesma coragem e determinação de quem sabe que tem uma pedra bruta mas não o diamante ainda nas mãos, Lee garimpou o melhor elenco do Oriente. Pretendia convocar Jet Li, o vilão de Máquina Mortífera 4 e protagonista do policial Romeu Tem que Morrer, ator versado em kung fu. Não deu certo, mas a troca foi de alto quilate: o protagonista masculino, Chow Yun-Fat, de Hong Kong, é o superstar por excelência do mercado asiático, com mais de 70 filmes no currículo. Além disso, recentemente radicou-se na América, contracenando recentemente com Jodie Foster em Anna e o Rei e com Mira Sorvino em Assassinos Substitutos.

Mais crucial ainda era a escolha das intérpretes femininas, que ocupam um espaço inusitado numa história neste território. Mais uma vez, uma trinca de ouro foi atraída ao set: a malaia Michelle Yeoh (de 007 - O Amanhã Nunca Morre), a novata chinesa Zhang Ziyi (vista em O Caminho para Casa, o último filme do premiado Zhang Yimou) e a veterana Cheng Pei Pei, chinesa de Xangai e uma das mais populares atrizes de kung fu desde os anos 60.

Fascinante de uma forma que poderá surpreender as platéias ocidentais que costumam torcer o nariz diante de acrobacias voadoras na tela, o enredo inspira-se no volumoso romance O Tigre e o Dragão, de Wang Du Lu, adaptado pelo trio de roteiristas James Schamus (parceiro habitual de Ang Lee), ao lado de Wang Hui Ling e Tsai Kuo Jung. Seu encanto quase hipnótico vem de elementos que, no Ocidente, costumam ser associados às histórias de capa-e-espada e pertencem à essência da melhor literatura, venha ela de onde vier - honra, intriga, romance, sacrifício.

Li Mu Bai (Chow Yun-Fat) é um lutador lendário mas cansado da guerra. Sua melhor amiga e amor secreto é outra mestra em wuxia, a escola de artes marciais de inspiração taoísta, que busca a liberação do espírito, Yu Shu Lien (Michelle Yeoh). Um amor impossível pelas convenções da época, porque Li Mu Bai era o melhor amigo do falecido noivo de Yu Shu. Sentimento forte o bastante, porém, para manter uma tensão amorosa que solta faíscas a cada vez que os dois se encontram.

Duas outras mulheres polarizam o bem e o mal. A mestra do mal é a Raposa Verde (Cheng Pei Pei), criminosa que se infiltrou sob falsa identidade no palácio de um governador, tornando-se a mentora de sua filha, a jovem e temperamental Jen (Zhang Ziyi). Clandestinamente treinada em proezas marciais, a jovem Jen está determinada a fugir ao destino restrito, previsto mesmo para mulheres aristocratas como ela - ou seja, um casamento rico e nenhuma autodeterminação. Um magnífico flashback, filmado no deserto de Góbi, ao norte da China, revela outras razões para a rebeldia de Jen - sua ligação amorosa com Lo (Chang Chen), líder de um bando de salteadores, uma turma que bem pode ser vista, aos olhos ocidentais, como correspondente à dos renegados dos faroestes. Na ligação entre Jen e Lo, aliás, está a explicação para o título do filme, que é evidente na língua chinesa a partir de seus próprios nomes. Jen tem o nome do dragão embutido no seu e Lo quer dizer "pequeno tigre".

Como em todo mito, a luta pela conquista de algum objeto deflagra uma sucessão de confrontos. No caso, é a espada Destino Verde, a lâmina de 400 anos de idade com a qual o guerreiro Li Mu Bai eliminou tantos inimigos, e que agora resolveu depor, dando-a de presente ao amigo Sir Te (Lung Sihung, o veterano pai da trilogia familiar de Ang Lee). Na luta pela posse da espada, enfrentam-se as mulheres e, eventualmente, também Li Mu Bai - como na excepcional seqüência da floresta de bambus onde ele desafia Jen, um dos momentos mais impressionantes deste filme, cujas lutas foram coreografadas pelo mestre Yuen Wo-Ping, que vem desta forma sedimentar a fama já consagrada na aventura Matrix. Toda esta mágica visual, porém, não funcionaria fora de uma moldura dramática sólida e envolvente, como, mais uma vez, Ang Lee foi capaz de construir - e é esta matéria que vem fazendo o filme ultrapassar fronteiras.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 11/08/2013 - 12h47 - Por camilo lopez quando for um aluno Respeite seu mestre pois seus ensinamentos saõ para nos ajudar e a entender. Tudo que nós aprendemos é para nos defendermos de coisas ruins, pois escute seu mestre. sou ex aluno das artes marciais. konguifu
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