Bicho de Sete Cabeças

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Crítica Cineweb

13/01/2003

Poucas vezes uma estréia de filme brasileiro foi tão esperada. Melhor dizendo, tão preparada, construída mesmo por uma eficiente estratégia de divulgação, que promoveu exibições pelo Brasil afora, criando um boca-a-boca, uma boa colocação na mídia que raramente costuma ser tão eficiente. Coroando tudo, as premiações em festivais de prestígio, como Recife e Brasília, no ano passado, inscreveram o primeiro longa-metragem da diretora Laís Bodanzky na lista daqueles que todo mundo vai querer ver. E deveria.

Tanta exposição pode até decepcionar alguns, se as expectativas forem altas demais. Afinal, trata-se de um bom filme, bem-feito, empenhado, bem-interpretado, com energia e ritmo, mas também muito simples. Aborda um tema que já foi muito visto e debatido, no Brasil inclusive, sobre os verdadeiros crimes que se comete quando se lida com o tema da loucura - que, por definição, é um termo usado sem a menor responsabilidade e com um autoritarismo e crueldade que beiram o hediondo.

Boa parte da força do filme reside na interpretação dedicada de Rodrigo Santoro. Na pele do protagonista, Neto, jovem de 17 anos internado num manicômio pelo próprio pai (Othon Bastos), ele cria uma empatia inegável com o espectador. Independentemente de sua idade, o público sente, pelo olhar e pelo corpo do ator, que todo aquele calvário de eletrochoques, pancadas e calmantes pesados pode acontecer a qualquer um. Esta proximidade é que arrepia e cria a possibilidade de o filme crescer na emoção de quem o assiste, ainda mais se se lembrar de que tudo começa quando um pai ignorante resolve internar o filho adolescente e rebelde, igual a tantos outros, apenas porque encontrou na mochila dele um cigarro de maconha e é absolutamente incapaz de negociar o conflito com ele.

Uma situação mais comum e cotidiana do que se pensa, especialmente nos bolsões sinceros mas radicais da família suburbana brasileira. Prova disso é que o enredo baseou-se num livro autobiográfico, Canto dos Malditos, do autor paranaense Austregésilo Carrano Bueno. Carrano ficou internado em manicômios entre os 17 e os 20 anos. Hoje, aos 43, guarda seqüelas como uma fissura no crânio e problemas na vista e na coluna, motivo de processos que correm na Justiça e são um sinal eloqüente do quanto é medieval ainda o sistema de saúde do país. Convenientemente, uma outra fonte do roteiro foi Franz Kafka, num livro em que ele delatava o estranhamento diante do próprio pai, Carta ao Pai.

Com este misto de denúncia e pedido de socorro, o filme constrói uma urgência que não tem como não despertar simpatia. Especialmente pela diretora Laís Bodanzki, que já havia demonstrado, num média-metragem anterior, o documentário Cine-Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil, sua vocação e talento para olhar nos olhos do Brasil real.

Neusa Barbosa


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