Onde Andará Dulce Veiga?

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Sinopse

Jovem jornalista recebe a tarefa de encontrar Dulce Veiga, uma estrela que desapareceu sem deixar vestígios. Em sua jornada, ele encontrará personagens inusitados, como a filha da artista, uma roqueira lésbica, e figurões da alta sociedade.


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Crítica Cineweb

26/06/2008

"Onde andará Dulce Veiga?" é mesmo uma boa pergunta. Pois não é no filme de Guilherme de Almeida Prado que está aquela Dulce Veiga conhecida do livro homônimo de Caio Fernando Abreu. Pelo contrário, a Dulce Veiga da tela só toma emprestado o nome e alguns personagens, que pouco têm a ver com aquilo que se lê – apesar de mantida a espinha dorsal da narrativa.

Onde Andará Dulce Veiga? foi idealizado no final dos anos de 1980, quando Almeida Prado leu uma crônica de Abreu num jornal e imaginou que dali sairia um filme. Quando conversou com o escritor, este lhe ofereceu uma outra história com tema parecido – essa, sim, sobre Dulce Veiga. Diante das dificuldades para tocar o projeto, Abreu resolveu escrever o livro para tentar alavancar o filme. Uma série de fatos – entre eles a morte do escritor – só permitiram que o filme fosse retomado nos anos 2000.

O roteiro, assinado por Almeida Prado, porém, parece não ter se dado conta disso. Onde Andará Dulce Veiga? é um filme anacrônico, daqueles que parecem ter sido esquecidos numa gaveta em 1985, redescobertos 20 anos depois e arremessados no cinema sem ao menos espanar o pó.

A grande diferença do filme para o livro é que este é um retrato de uma geração, de uma época. Quando é lido, não se sente o peso dos anos. Muitos filmes dos anos de 1980, quando imperava uma atmosfera kitsch de falso glamour sob a luz do néon, conseguiram sobreviver à prova do tempo. Anjos da Noite, de Wilson Barros, de 1987 – e lançado em DVD no ano passado – é um bom exemplo disso. Quando revisto, ainda é capaz de manter o interesse e a curiosidade – especialmente pelo retrato que faz de uma geração e daquele período.

Porque então Dulce Veiga, rodado há poucos anos, não consegue o mesmo efeito? Talvez porque Almeida Prado tenha feito um filme sobre os anos de 1980 com a cabeça daquela década, o que é um pouco estranho – tendo em vista que o mundo mudou e muito nesse período. O visual até não é o maior dos problemas. Embora tente passar como retrô, esbarra no cafona. O que é mais estranho é a mentalidade. Não é possível encarar os quinze minutos de fama atualmente como se via há vinte anos – vide a ascensão de reality shows e portais de vídeo caseiros na internet. Ainda assim, o longa se apega ao tema com certa ingenuidade.

Este é um filme sobre uma mulher, Dulce Veiga (Maitê Proença) que não conseguiu lidar com a fama e resolveu se isolar do mundo sem deixar recado. Décadas depois, o jornalista Caio de Almeida (Eriberto Leão) é incumbido de investigar o sumiço da estrela. Em seu caminho, ele irá encontrar Márcia Felácio (Carolina Dieckmann), uma roqueira lésbica líder do grupo As Vaginas Dentadas.

Esse mundo cult sob a luz do glamour cafona dos anos de 1980, no livro de Abreu, parece uma mistura das novelas detetivescas de Raymond Chandler com o kitsch dos filmes de Pedro Almodóvar. No filme, porém, um bocado de auto-indulgência – basta ver o nome do jornalista – e uma câmera que olha para o passado sem pensar no presente ou no futuro acabam com qualquer o potencial que a obra poderia ter. A história de Dulce Veiga é, em si, muito interessante . Porém, da forma como é contada por Almeida Prado, perde todo o seu vigor. O fato de ninguém do elenco estar bem e de que alguns atores são realmente irritantes, como Carolina Dieckmann, só colabora para esvaziar qualquer interesse.

É possível olhar para trás sem ficar encantado com o passado e ser seqüestrado por ele. Todd Haynes já deu vários exemplos com seus filmes, como Longe do Paraíso, e mesmo o braslieiro Podecrê, de Arthur Fontes. Almeida Prado caiu na armadilha que ele mesmo criou, e a pobre Dulce Veiga acabou tragada. Quem quiser saber onde anda a verdadeira Dulce Veiga, basta ler o livro de Abreu.

Alysson Oliveira


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