O Escafandro e A Borboleta

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Sinopse

Bauby é um jornalista de renome até sofrer um AVC. Depois disso, só consegue se comunicar piscando um olho. Com essa técnica e a ajuda de uma terapeuta, ele escreve um livro de memórias.


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Crítica Cineweb

03/07/2008

O ano era 1995 e Jean-Dominique Bauby, um jornalista de renome. Editor da revista Elle, era influente e vivia cercado de belas mulheres. Até o dia em que sofreu um AVC e ficou preso a uma condição extremamente rara conhecida como ‘locked-in syndrome’, também chamada de síndrome do encarceramento. Seu corpo perdeu quase todos os movimentos, embora sua mente funcionasse perfeitamente. A única coisa que era capaz de fazer era piscar o olho esquerdo.

Ainda assim, com a ajuda de uma secretária e de um método especial de comunicação, Bauby escreveu um livro de memórias que serviu de base para O Escafandro e a Borboleta.

No início, vemos o mundo pelos olhos do jornalista que acaba de acordar sem saber de sua condição – ou seja, são médicos, enfermeiras, imagens borradas, nada muito definido ou compreensível. Aos poucos, conforme ele recobra a consciência e os médicos diagnosticam seu problema, uma terapeuta começa a trabalhar uma penosa, mas eficiente, forma de comunicação. Ela desenvolve uma placa com as letras do alfabeto, vai falando uma a uma e ele pisca para confirmar as palavras de sua escolha, letra por letra.

Dirigido por Julian Schnabel (Prêmio de Direção em Cannes e Globo de Ouro do ano passado, além de uma indicação ao Oscar nessa categoria), o filme abre as suas possibilidades para a vida de Jean-Do, como o jornalista era conhecido, para o seu passado, sonhos e fantasias.

Bon vivant, Bauby (Mathieu Amalric) não ligava muito para a ex-mulher, Céline (Emmanuelle Seigner), e os três filhos pequenos. Sempre cínico, seu estado de espírito não muda depois da paralisia. Ele nunca demonstra pena de si mesmo. Quando um amigo comenta que a mais nova fofoca dos cafés parisienses é que ‘Jean-Dominique virou um vegetal’, ele próprio se pergunta ‘de que tipo? Uma cenoura? Um picles?’. Aos poucos, O Escafandro e a Borboleta deixa claro que o personagem conserva intacto seu espírito, apesar de sua condição física.

O título, na verdade, reflete a contradição de seu estado. Seu corpo pesado e inerte, tal qual um escafandro, depende sempre da ajuda dos outros. Enquanto isso, sua mente pode voar como uma borboleta, para o passado ou até lugares que ele não conhece.

Schnabel, que já foi artista plástico, usa o seu senso visual para criar imagens que muitas vezes rompem a fronteira entre o real e o onírico. Contando com a fotografia do experiente Janusz Kaminski, o diretor é capaz de transformar imagens em experiências sensoriais. Por isso, cores replicas de omega e texturas são de extrema importância. Assim como a trilha sonora, que conta com U2, Tom Waits, Lou Reed e o tema do filme Lolita, na cena de um jantar.

Esse é o terceiro filme do diretor, que sempre contou histórias de pessoas reais que enfrentam grandes obstáculos em nome de uma escolha. Basquiat, do filme homônimo, foi um pintor marginalizado; Reinaldo Arenas, um poeta homossexual na Cuba comunista em Antes do Anoitecer. Bauby poderia fugir desse paradigma não fosse pela opção que fez pela vida, apesar de todas as suas angústias – ele mesmo, pensa, no princípio, que morrer seria a melhor solução.

O Escafandro e a Borboleta é também um filme sobre pais e filhos. No primeiro dia dos pais depois do AVC, quando seus três filhos o vêem pela primeira vez naquele estado, a data adquire uma nova conotação. Ele diz que esse dia nunca fez parte do calendário afetivo da família – mas agora o faz. Na outra ponta da família está o pai (Max Von Sydow) de quem Bauby cuidava, para quem agora é doloroso o estado do filho.

Com roteiro assinado por Ronald Harwood, o filme foge da previsibilidade ou do sentimentalismo que o tema tantas vezes provoca. O resultado é um filme sensorial, que, como o livro de Bauby, é uma homenagem ao poder da imaginação e à escolha pela vida.

Alysson Oliveira


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