O Sonho de Cassandra

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 2 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Ian e Terry são dois irmãos de classe média baixa que sonham enriquecer. Terry faz uma dívida de jogo e pede empréstimo a um tio rico. Este pede que os dois matem um inimigo seu.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

30/04/2008

Em seu terceiro filme em Londres, Woody Allen retoma contato com seu gosto pelo sombrio, com uma história em que o humor é escasso e quase sempre negro. O foco está em dois irmãos, Ian (Ewan McGregor) e Terry Blaine (Colin Farrell). De classe média baixa, eles têm sonhos diferentes de ascensão. Caprichando mais no visual e no figurino, Ian ajuda seu pai (John Benfield) a contragosto, no pequeno restaurante da família. Juntando economias, ele procura tornar-se investidor em negócios com hotelaria. Ou o que for rentável.

Aparentemente mais desligado da idéia de enriquecer, Terry, que é mecânico de automóveis, não pára de apostar em cachorros, cavalos e cartas. As marés de sorte o inspiram a arriscar cada vez mais. Um dia, ele se dá mal e entra numa dívida enorme, de 90.000 libras.

Apavorado com as ameaças do agiota que o bancou, Terry lembra da existência do tio Howard (Tom Wilkinson). O irmão da mãe deles (Clare Higgins) é um médico que fez fortuna com uma rede de clínicas no exterior e visita esporadicamente o lado mais pobre do clã. Por coincidência, Howard está para chegar. Depois do almoço num hotel de luxo, pago pelo tio rico, os sobrinhos contam seu problema.

O tio revela-se um paternal chefão mafioso. Ao mesmo tempo que se dispõe a cobrir o prejuízo de Terry, exige um favor imenso e inesperado: que os sobrinhos matem um ex-sócio (Phil Davis) que o está processando e criando inúmeros problemas.

A partir da proposta do tio, os irmãos, tão unidos, começam a dividir-se. Terry, especialmente, tem sérios conflitos de consciência. Ian empenha-se em convencê-lo, especialmente depois que seu envolvimento com uma atriz (Hayley Atwell) projeta uma necessidade pessoal ainda maior de uma mudança de patamar social para ele.

Os fãs habituais do humor de Allen devem estranhar a pegada sinistra da história, que tem momentos de um clima quase shakesperiano – especialmente no dilema moral que abala Terry. Sem ser tão bom quanto filmes anteriores do diretor na mesma linha, como Crimes e Pecados e o recente Match Point, O Sonho de Cassandra demonstra como Allen absorveu bem sua desterritorialização de Nova York.

O diretor revela-se completamente à vontade na Inglaterra para, em seu primeiro filme nesse país sem atores norte-americanos, incorporar elementos da mesma dinâmica social que o interessa, num outro ambiente, com sotaques inteiramente distintos e que soam completamente plausíveis.

As pessoas que mobilizam a atenção de Allen neste tipo de história moral são as miúdas, as que precisam de trabalhar para viver, aquelas que nem sempre são personagens de filmes. Exceto os de cineastas como ele, que não teve origem aristocrática e procura muitas vezes uma ligação com uma realidade mais comum à maioria das pessoas.

A evolução dos personagens centrais, os dois irmãos, comprova mais uma vez a mão leve do diretor para deixar seus atores inteiramente à vontade na composição de seus papéis. É, com certeza, a melhor interpretação da carreira de Colin Farrell, cobrindo uma gama de sutilezas e emoções que seus filmes de ação em Hollywood não lhe dão oportunidade de exibir.

O toque sutil de tragédia grega que percorre a história é antecipado pelo nome do barco dos irmãos, que também batiza o filme. Cassandra, como se recorda, era uma princesa de Tróia a quem os deuses concederam o poder da profecia, ao mesmo tempo que a castigaram para que nunca ninguém cresse nela.

Falando em barco, há que se lembrar a Patricia Highsmith de O Sol por Testemunha. O tio Howard, afinal, bem que poderia ser um Tom Ripley na maturidade.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança