A Era da Inocência

Ficha técnica

  • Nome: A Era da Inocência
  • Nome Original: L'Âge des Ténèbres
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Canadá
  • Ano de produção: 2007
  • Gênero: Drama, Comédia dramática
  • Duração: 104 min
  • Classificação: Livre
  • Direção: Denys Arcand
  • Elenco:

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Sinopse

Jean-Marc Leblanc é um funcionário público no Canadá. Leva vida confortável com a mulher e duas filhas, mas elas não lhe dão a menor atenção. Ele se consola com fantasias incríveis com uma bela modelo, imaginando que viaja com ela pelo mundo e vive muitas aventuras.


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Crítica Cineweb

28/02/2008

O canadense Denys Arcand confirma sua condição de um dos cineastas que melhor discute o mal-estar da contemporaneidade neste filme que completa uma trilogia informal, iniciada por O Declínio do Império Americano (1986) e As Invasões Bárbaras (2003, Oscar de filme estrangeiro).

A acidez do diretor continua em dia e volta-se impiedosamente contra a aridez cultural e existencial dos tempos modernos. O intérprete ideal deste sentimento é o protagonista Jean-Marc Leblanc (o ator de TV e teatro canadense Marc Labrèche, que atua aqui pela primeira vez sob a batuta de Arcand). Ele é um apagado funcionário público do Departamento de Direitos Civis. Diariamente, enfrenta uma rotina que está drenando toda a sua energia. Em casa, não mantém o mínimo contato humano com a mulher Sylvie (Sylvie Léonard), uma agressiva e bem-sucedida corretora de imóveis, nem com as duas filhas adolescentes, que preferem o som de seus ipods a qualquer conversa com o pai.

No trabalho, Jean-Marc frustra-se pela crônica impotência para solucionar os inúmeros e pungentes problemas de uma verdadeira multidão que ali acorre todos os dias. Sempre ironizando as instituições públicas canadenses, Arcand retrata estes órgãos governamentais como imensas estruturas inoperantes. Como fizera em As Invasões Bárbaras, ele novamente arremete contra os hospitais, desta vez usando como pretexto a doença da mãe de seu protagonista.

A crítica do filme contra os órgãos públicos espelha-se particularmente na maneira como seus diretores optam por gastar o seu tempo. Ao invés de investir para melhorar seus próprios métodos de trabalho, seus gestores criam comitês de vigilância contra “palavras proibidas” (uma estocada clara contra os excessos do vocabulário politicamente correto) e a organização de patéticas palestras motivacionais.

No auge da insatisfação existencial, Jean-Marc escapa para fantasias mirabolantes com uma top model (Diane Kruger). Nelas, ele se transforma num homem másculo, poderoso, que protagoniza as mais excitantes aventuras, sexuais especialmente.

Numa situação em que procura uma aventura na vida real, para variar, Jean-Marc envolve-se com uma bela mulher, Béatrice (Macha Grenon) – apenas para descobrir que ela faz parte de um grupo de pessoas que se fantasiam de personagens históricos (no caso dela, da rainha Beatriz de Savóia) e encenam torneios idênticos aos medievais, com cavalos e tudo. A ironia contra os ardorosos fãs de O Senhor dos Anéis é evidente, com direito a uma citação direta.

Além das instituições governamentais, Arcand volta sua munição igualmente contra a mídia. Impossível negar uma espetada certeira ao compor a personagem desta jornalista ninfomaníaca e venal interpretada com malícia por Emma de Caunes.

Uma curiosidade para os espectadores de língua portuguesa será ver, numa brevíssima cena, um exemplar do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, nas mãos do protagonista. Na coletiva do filme, que encerrou o Festival de Cannes 2007, Arcand assinalou que admira muito o escritor português e que escolheu este livro por se adequar particularmente ao clima de sonho que caracteriza o protagonista.

Uma sutileza que se perde com o estranho título brasileiro é a referência à Idade Média contida no original - L’Âge des Ténèbres, ou “a idade das trevas”, numa livre tradução. A Idade Média tem tudo a ver com o clima obscurantista que se levanta numa época definida por uma luta surda entre o mundo ocidental e cristão e o Islã, como no tempo das cruzadas, simbolizado também pelos torneios medievais em que se envolve a bela Béatrice. Arcand não parece muito otimista com os tempos que vivemos. Mas luta com as armas de sua ironia e sua arte para melhorar o nível da discussão.

Neusa Barbosa


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