A Culpa É do Fidel

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Sinopse

Filha de militantes comunistas, nos anos 70, a pequena Anna vê desafiados seu apego ao conforto, ao colégio e à religião. Logo todos vão descobrir como todas as coisas não são bem o que parecem.


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Crítica Cineweb

20/12/2007

A História vista pelos olhos de uma criança tem um irresistível sabor neste filme, que adapta um livro da italiana Domitilla Calamai, Tutto Colpa di Fidel. A graça é que o autor dessa crítica não é nenhum sociólogo e sim uma menininha, Anna de la Mesa (a excelente Nina Kervel-Bey).

Com 9 anos, Maria não é de direita, nem de esquerda. Seus pais, a jornalista Marie (Julie Depardieu) e o advogado espanhol Fernando (Stefano Accorsi) são comunistas. Por conta da militância deles, a menina é jogada no centro do turbilhão político dos anos 70.

Como qualquer criança de classe média e vida confortável, ela é apegada ao seu ambiente e suas coisas. A primeira lição de coletivismo vem depois da chegada repentina de uma tia e um primo, fugidos da Espanha franquista depois da prisão do marido dela. Forçada a dividir seu espaço, Anna reage mal. O irmão caçula, François (Benjamim Feuillet) é mais pragmático.

Anna, no entanto, não é apenas uma menininha mimada qualquer. É independente, esperta e disposta a raciocinar com sua própria cabeça. Por isso, resiste à doutrinação dos pais, ainda mais estimulada pelas conversas com Filomena (Marie-Noelle Bordeaux), uma babá anticastrista que acha que todas as desgraças do mundo são culpa de Fidel Castro.

O grande equilíbrio dentro do filme está em contemporizar os excessos dos dois lados. Ao mesmo tempo que se pode avaliar o exagero do pai de Maria ao proibi-la de ler o Mickey porque seria “fascista” e impedir que continue assistindo às aulas de catecismo – que ela adora – na escola católica, não se deixa de expor o conservadorismo dos avós bem-postos na vida (Martine Chevallier e Olivier Perrier).

O grande divisor de águas na vida da família será a decisão do pai de abandonar um bom emprego numa firma de advocacia, tornando-se diplomata a serviço do governo socialista do chileno Salvador Allende. Para a menina, a atitude idealista do pai acarreta a mudança de uma confortável casa com jardim para um pequeno apartamento, que todas as noites se enche de homens barbudos. Os amigos do pai visitam a casa, enchendo o ar de discussões e fumaças de cigarro. A própria Anna não se furta a debater com eles suas próprias idéias sobre religião e propriedade privada – para eles, motivo de riso. Mas a morte de Allende põe por terra as esperanças políticas da esquerda.

A carinhosa ironia em relação à relatividade do fervor militante contido no filme certamente contém algo de autobiográfico. Afinal, a diretora e roteirista é Julie Gavras, filha do engajado diretor grego radicado na França, Constantin Costa-Gavras. Autor de tantos filmes políticos, como Z (69), Estado de Sítio (72) e Desaparecido (Oscar de roteiro adaptado em 82), ele certamente deve ter servido de inspiração para o personagem do pai da protagonista.

O melhor do filme é trazer uma reflexão ponderada, aguda e humanista, temperada de humor e compreensão - não um mero acerto de contas familiar, ou uma primária caça às bruxas ideológica. Se continuar neste caminho, Julie promete ter uma carreira interessante.

Neusa Barbosa


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