Jogo de Cena

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Sinopse

As histórias de vida de diversas mulheres são contadas, ora por elas, ora por atrizes, algumas famosas - Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres -, outras não.


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Crítica Cineweb

08/11/2007

Conhecido por um estilo que procura a maior naturalidade possível dos entrevistados e a menor interferência do diretor, uma técnica visível em seus premiados trabalhos anteriores, Santo Forte (1999), Edifício Master (2002) e o clássico Cabra Marcado para Morrer (1985), o cineasta Eduardo Coutinho retoma aqui o começo de sua carreira em mais de um sentido. Iniciando-se como cineasta com a ficção O Homem que Comprou o Mundo (1967), Coutinho volta a escalar atores num trabalho, coisa que faz pela primeira vez num documentário.

Uma das atrizes é Marília Pêra, que estreou no cinema justamente em O Homem que Comprou o Mundo. Marília, Fernanda Torres e Andréa Beltrão são as três atrizes famosas que o diretor convocou para recriar em cena algumas histórias reais de mulheres.

São todas mulheres, aliás, as personagens de Jogo de Cena, alternando-se depoimentos reais e as recriações das atrizes. Como algumas não são famosas, isto faz com que o espectador se pergunte o tempo todo qual é o depoimento real, qual o encenado, o que só se descobre no final, com algumas surpresas. Também as atrizes fogem às vezes do script e contam coisas pessoais. Esse jogo que busca romper fronteiras entre documentário e ficção é justamente o que interessa a Coutinho.

As mulheres que aparecem no filme foram selecionadas a partir de anúncios publicados em jornais. Oitenta e três mulheres compareceram dispostas a contar suas histórias de vida, como pedia o anúncio. Depois de um processo preliminar de entrevistas, método habitual de Coutinho e sua equipe, restaram vinte personagens. Na tela, o número de histórias caiu para menos de metade. A escolha dependeu mais da capacidade de narração de cada entrevistada do que propriamente dos fatos de sua vida.

Para interpretar seus papéis, as atrizes receberam versões editadas dos depoimentos em dvd e também o conteúdo integral deles, por escrito. A partir desse material, tinham liberdade de encontrar uma forma de interpretar diante da câmera. Tanto as atrizes quanto as mulheres anônimas falam a Coutinho no cenário único de um teatro. E o diretor supera-se magistralmente, mais uma vez, encontrando caminhos para seu cinema que não estavam lá antes.

A capacidade de se reinventar deste setentão continua afiada e arrepiante. Coutinho faz o contraponto a esta fútil era das celebridades, em que tanto se mostra, mas nada se diz. Sem nunca perder um profundo respeito por seus personagens, o cineasta revela pessoas comuns que iluminam, às vezes com biografias tão mínimas, o próprio conceito de humanidade.

Neusa Barbosa


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