Crimes em Primeiro Grau

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Crítica Cineweb

11/02/2003

Mesmo obedecendo a uma meia dúzia das regrinhas que regem nove entre dez roteiros de Hollywood, há mais vida inteligente neste filme do que alguns podem imaginar.

Para começar, a heroína é uma mulher (Ashley Judd) - coisa de outro planeta no cinema americano que, aliás, só abriu espaço para uma heroína de ação na Sigourney Weaver justamente numa ficção científica, a cinessérie Alien. Em segundo lugar, seu fiel escudeiro é um negro da terceira idade (Morgan Freeman), ou seja, nenhum galã que caiba no estereótipo do herói politicamente correto pós-Oscar 2002, como um Denzel Washington. Em outras palavras, uma dupla que não se vê nas telas todos os dias, embora consagre uma segunda parceria dos dois atores, cuja química sobreviveu mesmo a algumas fragilidades do roteiro do bom suspense Beijos que Matam (97).

Ashley Judd e Morgan Freeman, aliás, já demonstraram seu fôlego para sobreviver a muitos filmes ruins, prova de fogo para o carisma de qualquer ator. Ashley é hoje uma das atrizes mais capazes e bonitas, nessa ordem, do cinema americano. Morgan Freeman, ora, Freeman não precisa provar mais nada a ninguém. Passeia olimpicamente seu charme e instinto de ótimo intérprete e compõe outro personagem ambíguo com a justa dose de humor - o que pensar de um advogado que tem como sócio o próprio cão?

Tirando partido da irresistível simpatia que despertam na platéia os seres vagamente perdedores, Freeman emerge da história como Charlie Grimes, um ex-advogado militar expulso da marinha por suas aventuras sexuais com as mulheres dos outros. Ele vive no seu canto, bebendo um pouco além da conta e ajudando prostitutas que têm problemas com a polícia. Um dia, é procurado por Claire Kubik (Ashley), advogada poderosa de Nova York às voltas com um caso quase perdido: um marido (Jim Caviezel) que ela descobre da noite para o dia ter uma outra identidade, a do oficial Ronald Chapman, acusado da chacina de civis em El Salvador e que, por isso, pode ser condenado à morte.

Estranha aos tribunais e regulamentos militares, Claire confia no conhecimento e na malandragem de Grimes, que vêm muito a calhar. Funcionam como reforço cômico dois personagens secundários, a irmã maluquinha de Claire (Amanda Peet) e um oficial novato, também engajado na defesa de Chapman (Adam Scott).

O diretor Carl Franklin demonstra, mais uma vez, manejar com habilidade os elementos das histórias policiais, como se viu em Um Passo em Falso e O Diabo Veste Azul, embora pudesse ter expurgado um pouco mais os chavões tão caros aos filmes de tribunal. Falta um pouco mais de ousadia, também, na insinuação de uma química sexual entre Ashley e Freeman. Parece que o apartheid ainda não caiu nos domínios do romance em Hollywood, mesmo em se tratando do trabalho de um diretor negro.

Um ponto positivo e que com certeza deve-se ao mero acaso, é que não poderia haver ocasião mais adequada para o lançamento deste suspense que tem como panorama a nocividade de boa parte da política externa americana e dos não raro sujos mecanismos de que se vale, em casa, para acobertar os próprios crimes.

Cineweb-1º/5/2002

Neusa Barbosa


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