Crônica da Inocência

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Crítica Cineweb

11/02/2003

É um filme decididamente intrigante - e, no entanto, o universo em que ele se move é de uma simplicidade cristalina. A dualidade é, portanto, o segredo por trás desta adaptação saborosa do livro do italiano Massimo Bontempelli que, escrito em 1929, ganha uma atualização nas mãos do experiente cineasta Raoul Ruiz.

Mesmo veterano e premiado, o chileno Ruiz não é um nome muito conhecido no Brasil. Poucos exemplares de sua volumosa filmografia - 30 títulos - foram exibidos no circuito comercial nacional e, ainda assim, todos no circuito dos festivais e das salas de arte. Foi o caso de O Tempo Redescoberto (99), produção elegante inspirada em Marcel Proust, Genealogias de um Crime (Urso de Ouro em Berlim/97) e Três Vidas e uma Só Morte (96), iluminado por uma interpretação cativante de Marcello Mastroianni. Três trabalhos que ilustram o estilo deste cineasta nascido em 1941, há muito radicado na França - ou seja, enredos intrincados, com elencos repletos de atores do primeiro time e muito freqüentemente com temas extraídos da literatura.

Crônica da Inocência tem como protagonista um menino de 9 anos, Camille (Nils Hugon), que um dia anuncia à sua mãe, Ariane (Isabelle Huppert), que deseja ir para a casa de sua "verdadeira mãe". Intrigada, Ariane decide acompanhá-lo aonde ele diz que é sua "verdadeira casa". O menino conhece o endereço de cor: um apartamento no centro da cidade, onde mora a violinista Isabelle (Jeanne Balibar). O pior é que a desconhecida confirma a história de Camille, dizendo que ele é, na verdade, Paul, seu filho de 9 anos que teria se afogado há alguns anos.

Contribui muito para que se instale uma atmosfera ambivalente o fato de que nunca se deixa claro quem está falando a verdade - até a própria Ariane, a suposta mãe real do menino. O garoto, então, é o rei da ambigüidade. Filma tudo que vê com sua câmera portátil, instaurando no filme uma metáfora para o próprio cinema. Afinal, das fitas que ele faz emerge a constatação de que a câmera nem sempre fala a verdade, por mais realista que seja a imagem que ela reproduz. A inocência mencionada no título não é mais do que uma ironia. Que inocência é essa a de Camille, capaz de tantas manipulações ?

O irmão de Ariane, o psiquiatra Serge (Charles Berling), torna-se a instância da racionalidade. É ele quem procura explicações lógicas para os acontecimentos, já que descarta a reencarnação e mesmo a possibilidade de um distúrbio psicológico de Camille. A ausência do pai (Denis Podalydes), que está viajando quando o problema começa, cria outras suspeitas sobre os relacionamentos familiares, em que se encaixa ainda uma outra figura muito dúbia, a da babá (Laure de Clermont-Tonnerre).

Muito singelamente, Ruiz assim definiu essa história: "É a infância de D. Juan". É mais uma sugestão no caminho de quem se dispuser a fazer essa travessia cinematográfica em que contar com a própria imaginação torna assistir ao filme o equivalente a revisitar a atmosfera de um trabalho de Buñuel, ler um conto de Borges ou um romance de García Márquez. Como esses artistas, Raoul Ruiz também prefere criar uma infinidade de meios-tons onde alguns se limitam ao maniqueísmo do branco-e-preto.

Cineweb-29/3/2002

Neusa Barbosa


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