Medos Privados Em Lugares Públicos

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Sinopse

No bar de um grande hotel 5 estrelas, o garçom Lionel (Pierre Arditi) escuta todos os dias as histórias de um cliente assíduo, Dan (Lambert Wilson). Ex-militar, Dan tem problemas para procurar emprego, o que torna cada dia mais instável seu relacionamento com a noiva Nicole (Laura Morante).


Nicole está ansiosa para mudar de apartamento e para isso procura um corretor de imóveis, Thierry (André Dussollier). No seu escritório, Thierry divide o espaço com a secretária Charlotte (Sabine Azéma). Cristã fervorosa, ela empresta ao colega de trabalho fitas de vídeo onde gravou trechos de seu programa religioso favorito. Ao assisti-los, Thierry tem uma surpresa.


Charlotte começa a tomar conta do pai doente de Lionel à noite, período em que o garçom precisa sair para o trabalho. E a irmã de Thierry, a solitária Gaëlle (Isabelle Carré), acaba cruzando o caminho de Dan.


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Crítica Cineweb

12/07/2007

É surpreendente a boa forma do diretor francês Alain Resnais. Aos 85 anos, o autor de Hiroshima Meu Amor (59), Ano Passado em Marienbad (61) e Providence. (77) continua ativo e perspicaz como sempre. E realiza aqui um extraordinário filme sobre a procura afetiva e a solidão.

O clima é tão francês, a atmosfera, tão parisiense, que se diria tratar-se de um roteiro original. Nada disso. Esta é a segunda adaptação de Resnais a partir de uma peça do inglês Alan Ayckbourn. Os dois se conheceram em 1989, quando Resnais foi descoberto pelo dramaturgo na platéia de uma de suas peças, em seu teatro na cidade de Scarborough, onde Resnais já estivera como espectador muitas vezes, sem ser notado.

A partir daí, a amizade estreitou-se a ponto de Ayckbourn e sua mulher terem sido testemunhas do casamento de Resnais com a atriz Sabine Azéma – que aconteceu lá mesmo, em Scarborough, em 1997.

Resnais é um grande admirador da obra do prolífico dramaturgo, que já escreveu 70 peças e é considerado, aos 68 anos, o segundo autor inglês mais encenado nos palcos. Só perde mesmo para todos sabem quem, ele mesmo, William Shakespeare. Sua primeira peça a tornar-se filme do cineasta francês foi Intimate Exchanges, base de Smoking, No Smoking (1993). Naquele filme, Resnais quis tanto ser fiel à atmosfera de Scarborough que importou tudo de lá, inclusive tecidos de decoração.

Já em Medos Privados em Lugares Públicos, Resnais reduziu de 54 para seis os personagens da trama tentacular, além de transplantá-la de Londres para Paris. O resultado é excelente. Resnais sintoniza a dor humana com a cor da autenticidade.

No bar de um grande hotel 5 estrelas, o garçom Lionel (Pierre Arditi) escuta todos os dias as histórias de um cliente assíduo, Dan (Lambert Wilson). Ex-militar, Dan tem problemas para procurar emprego, o que torna cada dia mais instável seu relacionamento com a noiva Nicole (Laura Morante).

Nicole está ansiosa para mudar de apartamento e para isso procura um corretor de imóveis, Thierry (André Dussollier). Gentil e solidário, o corretor não consegue satisfazer a cliente. No escritório, Thierry divide o espaço com a secretária Charlotte (Sabine Azéma), de longe a personagem mais excêntrica da trama. Cristã fervorosa, ela empresta ao colega de trabalho fitas de vídeo onde gravou trechos de seu programa religioso favorito. Ao assisti-los, Thierry flagra uma porção mais pervertida dos desejos de Charlotte.

A ligação com Lionel é feita quando Charlotte começa a tomar conta do pai doente dele à noite, período em que o garçom precisa sair para o trabalho. E a irmã de Thierry, a solitária Gaëlle (Isabelle Carré), acaba cruzando o caminho de Dan. Dessa maneira, todas as vidas destes personagens são entrelaçadas. Há desejos não correspondidos, relações interrompidas, malentendidos. Ainda assim, em nenhum momento o filme se mostra niilista. Resnais tem amor por suas criaturas e trabalha sempre com atores de alto quilate como estes, alguns freqüentadores de vários de seus filmes anteriores, como Sabine Azéma, Pierre Arditi e André Dussollier.

Há um doce encanto nestes solitários, todos de classe média, pessoas que têm de trabalhar para ganhar a vida – uma preferência que vem do dramaturgo Ayckbourn. Não existe, assim, aquele clima feericamente falso das novelas de TV ou dos filmes de Hollywood em que os heróis e heroínas são todos ricos, bonitos e ociosos. Resnais prefere pessoas de carne e osso, que se tem a sensação de já ter encontrado alguma vez na rua, no metrô, num bar. Que bela maturidade, Monsieur Resnais.

Neusa Barbosa


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