Não Por Acaso

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Sinopse

Jogador de sinuca, Pedro (Rodrigo Santoro) passa muito tempo calculando jogadas de difícil execução. O romance com Teresa (Branca Messina) é fonte de alegria, mas também de conflitos. O controlador de trânsito Ênio (Leonardo Medeiros) tem uma filha (Rita Batata), mas nem a conhece. A moça é criada pela mãe e um padrasto. Um acidente de trânsito embaralha estas vidas e cria novos relacionamentos.


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Crítica Cineweb

06/06/2007

A busca do equilíbrio entre o rigor estético e a espontaneidade dos atores move o cinema do diretor Philippe Barcinski. Carioca radicado em São Paulo e curta-metragista premiado por trabalhos como Palíndromo (2001) e A Janela Aberta (2002) – que concorreu na competição oficial de curtas no Festival de Cannes -, ele estréia em longas neste drama que se estrutura em duas histórias que correm paralelas com protagonistas distintos, embora de igual peso (Leonardo Medeiros e Rodrigo Santoro).

Unindo as duas histórias, há um acidente de carro – como acontecia em Amores Brutos (2000), do mexicano Alejandro González Iñarritu, outro cineasta especializado em tramas múltiplas e fascinado pelos efeitos às vezes fulminantes do imponderável. O desastre provoca a morte de duas mulheres e desencadeia o enredo, desenvolvido em torno da dificuldade de lidar com a perda do ponto de vista masculino.

Na composição deste roteiro intricado e preciso, mas não a ponto de sacrificar a emoção, Barcinski aplica livremente alguns dos princípios aprendidos nos dois anos de um curso de Física, logo abandonado. Há uma paixão pela idéia de exatidão e de controle na psique dos dois personagens principais, o jogador de sinuca Pedro (Santoro) e o controlador de trânsito Ênio (Medeiros). Pedro esmera-se na criação de jogadas complexas e de difícil execução – criadas pelo próprio diretor com a assessoria do especialista Renato Da Mata – e que sejam capazes de desconcertar os adversários. Ênio exercita o nada desprezível poder de orientar o fluxo das vias de São Paulo, às vezes ordenando o bloqueamento de algumas ruas para que se esvaziem outras.

Nada mais paulistano do que enfocar o trânsito da metrópole que é, assumidamente, um personagem indispensável na vida de todos os personagens, assim como na dos demais habitantes da cidade. Desta maneira, brotam na tela paisagens como o Minhocão, onde Ênio passeia placidamente com a filha Bia (Rita Batata, em seu primeiro grande papel no cinema), a quem ele acaba de ser apresentado.

Embora soubesse de sua existência, ele sempre se recusou a conviver com ela, depois que a ex-mulher (Graziela Moretto) refez sua vida com outro homem que assumiu o papel de pai. Depois da morte da mãe, a moça insiste em conhecer este pai biológico trancado numa absoluta defensiva afetiva, seduzindo-o pouco a pouco para a perspectiva de descobrir este novo relacionamento vital, de que talvez ele precise ainda mais do que ela.

A interpretação ao mesmo tempo intensa e sutil de Leonardo Medeiros, um dos mais viscerais atores brasileiros, sustenta esse foco narrativo com total credibilidade. Num simples olhar, ele é capaz de transmitir uma funda e inexplicável dor e a mais completa vulnerabilidade. Cria, assim, um de seus grandes papéis na tela, capaz de alinhar-se com o do guerrilheiro encurralado do drama político Cabra Cega (2004), de Toni Venturi, e do irmão mais velho de Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho – pelos quais foi premiado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Na outra vertente da história, o jogador Pedro vivencia uma grande perda com uma desordenada tentativa de substituição. No princípio, ele desfrutava de um relacionamento apaixonado com a jovem Teresa (Branca Messina), mas era ela quem sempre tomava as iniciativas. Pedro só reagia às suas tempestades e à sua ternura – como na seqüência em que ele constrói uma estante para abrigar todos os livros que ela trouxe do grande apartamento que abandonou para viver com ele.

Quando ela morre, Pedro sente-se imensamente ferido e mesmo logrado naquela autoconfiança que ele tinha de mais cara. Esta é uma jogada para a qual ele nunca se preparou e não tem tática ensaiada de reação. O acidente de conhecer a inquilina para quem Teresa alugou seu antigo apartamento, a executiva Lúcia (Letícia Sabatella), abre uma porta de saída, imprevista para os dois. Mulher de negócios habituada ao comando de seu mundo a partir do celular e do notebook, ela não sabe como encarar a intrusão deste homem um tanto rude e desorientado em sua vida. A única resposta possível passa pela intuição.

Outro personagem, este bem incômodo, do filme, é a música. A trilha de Ed Cortês, que tem no currículo trabalhos admiráveis em Cidade de Deus e Abril Despedaçado, aqui é estridente e destoa do tom geral de contenção do filme, de resto, tão equilibrado.

O filme, que promete ser um dos melhores lançamentos nacionais de 2007, venceu quatro prêmios no Cine PE – Festival do Audiovisual, em Recife, em abril, onde fez sua primeira exibição pública: melhor ator (Medeiros), montagem (Márcio Canella), fotografia (Pedro Farkas) e atriz coadjuvante (Branca Messina).

Neusa Barbosa


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