Cão sem Dono

Ficha tcnica


Avaliao do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


Pas


Sinopse

Ciro, tradutor e desempregado, vive solitário num pequeno apartamento quase vazio no centro de Porto Alegre. Sua única companhia é o cachorro que achou na rua e batizou de Churras. Um dia, conhece Marcela, modelo e bem-sucedida e brota uma intensa paixão. Mas nem tudo é romance na vida dos dois.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crtica Cineweb

10/05/2007

Numa cidade qualquer, é tão difícil ter silêncio em volta de si. Mas, quando se consegue, esse mesmo silêncio às vezes cresce de modo a formar uma barreira contra todo e qualquer sentimento. É assim anestesiado e solto que se sente Ciro (Júlio Andrade), protagonista desta história, que vive quase numa bolha, apesar de localizada no centro de Porto Alegre.

Ele mora num apartamento quase sem móveis, numa vida essencial, resumida ao mínimo. Só uma cama, uma mesa na cozinha, um fogão, pouca louça e Churras, um cachorro achado na rua e a quem Ciro dá tão pouca atenção que é mais por opção do próprio cachorro ficar ali.

Este universo por demais básico, de alguém que não quer se apegar a coisa alguma, é invadido pela presença enérgica e solar de Marcela (Tainá Muller). Modelo, bem-sucedida, independente, sexy, cheia de iniciativa e atitude, ela se interessa justamente pela falta de tudo isso que identifica em Ciro. Vivendo num ambiente de aparência e falso brilho – que felizmente o filme nunca mostra, mas está implícito na consciência da platéia -, Marcela procura uma coisa autêntica. Ciro é isso, mas seu distanciamento tem algo de doente e com potencial de não deixar nada nascer nesta terra árida.

Armando-se sobre estes dois pólos, do sentimento amoroso e do deslocamento profissional – que em Ciro é por falta, em Marcela, por excesso -, Cão sem Dono equilibra uma equação existencial que dá como resultado um retrato de geração. Tudo no filme respira presente, contemporaneidade, urgência, naturalismo e nenhum discurso. A primeira cena, um intenso ato de amor entre o casal, não tem prólogos, já é algo acontecendo, como uma história capturada pela câmera (de Toca Seabra) a meio caminho andado.

Mesmo partindo de um livro - Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera -, não há narrações em off. Felizmente, os diretores Beto Brant e Renata Ciasca acreditam que o cinema pode dar conta de contar uma história, qualquer história, contando com os próprios meios. Por isso, seus filmes são capazes de dar conta da literatura, devorando sua essência, mas sem curvar-se à sua linguagem. A beleza, aqui, é de outra ordem. De uma luz reduzida ao mínimo essencial, de uma montagem (de Manga Campion) que acompanha a pulsação de dois jovens que, como todos, querem viver o aqui e agora como se não houvesse amanhã.

Por essa coerência, por essa integridade, por esse cuidado de construção que não se torna formalismo e, portanto, preserva o sentimento, Cão sem Dono chega às telas já como uma das melhores apostas deste ano. É um conto de amor para estes tempos de cansaço ideológico, mostrando que, afinal, estamos todos sempre vivos, e passíveis de redenção. Enquanto durar o fôlego.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentrio:

Imagem de segurana