Abril Despedaçado

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Crítica Cineweb

13/01/2003

Não seria tão natural Walter Salles transportar da Albânia dos anos 30 para o Nordeste dos anos 10 a história criada pelo escritor Ismail Kadaré no livro Abril Despedaçado se não fosse tão visceral nos homens de qualquer ponto do planeta o primitivo desejo de vingança. Não é mesmo recente essa mecânica assassina que liquida vidas no Oriente Médio de agora, como em tantas outras partes ao longo da história. Uma mecânica, aliás, a que nenhum ser humano é estranho - apenas alguns grupos conseguem recobri-la melhor ou por mais tempo dos sinais daquilo que chamamos civilização.

O guardião de um desses vestígios iluministas está no narrador desta história, o menino Pacu (Ravi Ramos Lacerda, mais uma certeira descoberta do diretor Walter Salles para o cinema). Ele, como o menino de Central do Brasil, nem sabe ler. Mas é capaz de inventar, nas entrelinhas, um caminho capaz de superar a guerra interminável entre sua família, os Breves, e os Ferreira - dois clãs que, há décadas, disputam cada palmo de terra, com visível desvantagem para os Breves.

A estirpe da qual Pacu é o caçula só resiste por ele e outros três integrantes: o pai (José Dumont), a mãe (Rita Assemany) e o irmão mais velho, Tonho (Rodrigo Santoro), a quem assiste agora o dever de vingar pelo sangue a última morte, do irmão Inácio (Caio Junqueira). Um rito sanguinário cujo ritmo é ditado pela mudança da cor do sangue, de vermelho para amarelo, derramado na camisa do último morto, estendida num fatídico varal como bandeira que sinaliza ao mesmo tempo a trégua e o final dela.

Neste sertão remoto, o que sobra em sol, falta em água. Salta aos olhos a contradição entre o determinismo rasteiro, árido como a geografia em redor, e uma natureza cuja amplidão e beleza chega a sufocar. O sol que brilha sempre não ilumina, enlouquece. Como entender de outra forma esse ritual alucinado de matar e prestar homenagem no velório da vítima inimiga e olhar nos olhos da viúva, que só pode responder com o ódio de quem espera reparação na mesma moeda o quanto antes?

Naquele que é o filme mais ambicioso, maduro e bem-acabado do diretor - superior mesmo a Central do Brasil - a câmera (de Walter Carvalho) está sempre impecavelmente colocada. Há enquadramentos belíssimos, desses capazes de ficar na memória por muito tempo: a corrida dos dois rivais entre os mandacarus, numa montagem que contrapõe o ponto de vista de cada um para uni-los no final; o vôo no balanço de Tonho e o giro sensual de Clara (Flávia Marco Antonio) na corda do circo, a caminhada solitária de Pacu na penumbra da madrugada, as mais nítidas traduções visuais da luta pela vida e do escape pela arte, pelo amor, pelo sacrifício. Cenas que sedimentam a ambivalência da sensação de que, no meio de tanta beleza, a paz não possa sobreviver.

Cineweb-1/5/2002

Neusa Barbosa


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