Ventos da Liberdade [2007]

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Na Irlanda dos anos 20, dois irmãos, Damien (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney), são muito diferentes.
A princípio avesso à militância, Damien planejava viver em Londres, trabalhando como médico. Guerreiro nato, Teddy há muito se engajou na luta pela independência contra os ingleses. Um assassinato praticado pelos britânicos provoca a revolta de Damien, que se une ao irmão e entra na clandestinidade.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

12/04/2007

Uma das maiores qualidades do diretor inglês Ken Loach é conseguir falar do geral a partir do particular – e vice-versa. Assim, ele aborda o político sem escamotear o humanismo. Não faz discursos. Encara realidades difíceis, doídas, contraditórias e revela-lhes a amplidão e a dureza. Por isso é que seus filmes, como este, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2006, podem habitar o coração e a mente do espectador simultaneamente, sem que nem o sentimento nem a razão sejam traídos.

Ao retratar a Irlanda dos anos 20, em plena luta contra o dominador inglês, Loach comprou uma briga. Afinal, ele mesmo é inglês e nem por isso, naturalmente, se intimida em retratar seus compatriotas como opressores, violentos, irracionais, como quando ocupam casas de camponeses irlandeses e matam um adolescente apenas porque não quis pronunciar seu nome em inglês, insistindo na própria língua nativa.

A imparcialidade de Loach vai mais longe, até porque sua ambição é bem maior do que retratar, maniqueisticamente, o enfrentamento entre o colonizador inglês e o colonizado irlandês. O foco do interesse do diretor, mais uma vez escudado num sólido roteiro de seu habitual colaborador Paul Laverty, é o processo político, a luta pelo poder. Portanto, a história vai mais longe. Mostra o quanto os combatentes pela liberdade podem, eles mesmos, transformar-se ao longo do tempo em algozes de toda a razão que tinham no início ao sentirem-se forçados a atender ao pragmatismo de ocasião.

Escalando como figuras centrais dois irmãos, Damien (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney), com o tempo irremediavelmente divididos por suas convicções, o drama progride a salvo da pieguice – uma das marcas registradas deste diretor, tão hábil em extrair interpretações ao mesmo tempo emocionadas e contidas de seus atores.

Estes irmãos simbolizam as vias paralelas percorridas pelo ativismo do Exército Republicano Irlandês (IRA). A princípio avesso à militância, Damien planejava viver em Londres, trabalhando como médico. Guerreiro nato, Teddy há muito mergulhara na luta contra os ingleses. A injustiça de um assassinato praticado pelos britânicos provoca a revolta de Damien, que se une ao irmão e entra na clandestinidade, onde as leis da guerra são sangrentas. Olho por olho, dente por dente. Tortura e morte fazem parte do cotidiano. E muito medo.

Nunca se duvida de que lado está o coração do filme – contra a opressão. Mas nunca se limita, igualmente, a discussão a uma simples tomada de partido. A realidade é mais complexa e menos romântica do que pretendem os idealistas e os pragmáticos. Com o tempo, todos podem tornar-se assassinos que novas esperanças e utopias deverão urgentemente remover e substituir.

É de se notar a energia com que Loach filma, aos 70 anos numa maturidade inabalavelmente criativa. E não lhe falta humor, nem paixão, nem mesmo poesia. O título original do filme (The Wind that Shakes the Barley) vem de uma canção, de Robert Dwyer Joyce, que sintetiza o inquebrantável e apaixonado espírito da pátria de James Joyce e Samuel Beckett como talvez nada mais seria capaz de fazer.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança