Cartola

Ficha técnica


País


Sinopse

Cartola (1908-1980) era o apelido do sambista Angenor de Oliveira, um dos maiores compositores da música popular brasileira de todos os tempos. O documentário conta a história de alguém que nasceu classe média, conheceu a miséria e a tragédia mas transformou tudo o que viveu em matéria da mais fina poesia.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

05/04/2007

Depois de um tempo de gestação que consumiu nove anos, bate nas telas este belo documentário, sobre uma das figuras maiores da música brasileira, o sambista carioca Angenor de Oliveira (1908-1980), conhecido como Cartola. Um filme maiúsculo, não se envergonha de assumir-se como documentário, sem nenhum complexo perante os preconceitos que ainda persistem, às vezes, sobre o gênero, nem deixa de incorporar as licenças criativas da ficção – que o diretor Lírio Ferreira, aqui em parceria com Hilton Lacerda, conhece de cor de seus talentosos filmes anteriores, Baile Perfumado (1997) e Árido Movie (2006).

O longo tempo da produção, que começou a ser idealizada em 1998, transformou-se em oportunidade para que os diretores pesquisassem e revelassem mais a fundo o mundo multifacetado de Cartola, um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, em 1928, além de autor de mais de quinhentas canções, solo ou em parceria, entre as quais as celebradas O Sol Nascerá , regravada mais de seiscentas vezes por diversos intérpretes, O Mundo é um Moinho, a favorita do poeta Carlos Drummond de Andrade, que reconhecia em Cartola um talentoso colega, e As Rosas Não Falam, cantada em coro no enterro do sambista.

Lançando-se a uma extensa pesquisa, que consumiu cinco anos, os dois diretores mergulharam em biografias, entrevistas com a família – embora D. Zica, a viúva do compositor não tenha participado muito, porque também morreu, em 2003 – e com seus amigos, como Nelson Sargento e Elton Medeiros, parceiro que funcionou como um consultor da produção, facilitando contatos e dando pistas sobre pessoas importantes a ouvir no círculo do compositor.

Reconstrói-se, assim, o perfil do sambista que nasceu, por coincidência, no mesmo ano em que morria Machado de Assis, apontando para os encontros e diferenças na trajetória destes dois gênios mulatos cariocas. Enquanto Machado nasce pobre, é adotado, ascende socialmente e torna-se um dos maiores nomes da literatura brasileira, Cartola nasce na classe média, no bairro do Catete, mas depois conhece a miséria em mais de um momento na vida. Neto de um cozinheiro da Presidência da República, num Rio de Janeiro que era ainda a capital, quando criança brincava no palácio do governo. Quando morre o avô, a situação econômica da família decai e ele se muda, aos 11 anos, para o Morro da Mangueira, que se torna o palco de algumas de suas maiores glórias e não poucas tragédias.

Indo além dos detalhes biográficos e depoimentos, o filme reconstitui igualmente a época de Cartola através de inúmeras imagens do Rio de Janeiro, cenas de antigos carnavais, acontecimentos políticos registrados em tele e cinejornais, chanchadas da Atlântida e filmes do Cinema Novo – alguns deles, como Ganga Zumba (63), de Cacá Diegues, com participações do próprio Cartola no elenco.

Se todo este contexto revaloriza a importância artística de Cartola, nunca se tenta negar, bem ao contrário, o quanto ele foi, apesar de tudo, um personagem trágico, numa vida pontuada por altos e baixos. Mesmo fundador da Mangueira e compositor do primeiro samba da escola (Chega de Demanda), ele muitas vezes viu-se forçado a vender suas composições. Teve meningite, quase ficou paralítico e, aos 38 anos, mesmo depois de tantos sambas de primeira linha, sumiu da cena artística e foi até dado como morto. Foi reencontrado por acaso, em 1956, pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislau Ponte Preta, quando lavava carros em Ipanema. Um encontro que o levou a ser redescoberto e, finalmente, a ter sua voz registrada, em 1966, num disco de Elizeth Cardoso.

A experiência do documentário, pioneira no currículo de Lírio Ferreira, já encontrou continuidade. Ele finalizou O Homem que Engarrafava Nuvens, sobre a vida e obra do chamado “doutor do baião”, Humberto Teixeira – apelido que o diferenciava do parceiro Luiz Gonzaga, este o “rei do baião” e com quem compôs, entre outras, a célebre Asa Branca. Este novo filme deve chegar às telas ainda no segundo semestre de 2007.

Neusa Barbosa


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