Eu Me Lembro

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País


Sinopse

Guiga é um menino que vive infância tranqüila na cidade de Salvador, onde nasceu na década de 50. À medida que vai crescendo, encara as contradições de uma educação rígida, marcada pelo catolicismo na escola e pela dureza no relacionamento com o pai. Jovem nos anos 70, Guiga vive num país massacrado pela ditadura, onde sua geração tem uma entre duas opções: aderir à luta armada ou cair no "desbunde".


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

27/09/2006

O primeiro longa do baiano Edgard Navarro chama a atenção em primeiro lugar pela figura de seu realizador. Cineasta independente na ativa desde 1976, na bitola Super-8, Navarro só estreou no formato longa em 2005, quando já alcançava 56 anos. Um detalhe que só ilustra as dificuldades de fazer cinema no Brasil, ainda mais em se tratando de um realizador que se caracteriza por um trabalho que não visa primordialmente o aspecto comercial.

Navarro era conhecido especialmente pelo média Superoutro, retrato de um louco de rua que procura a liberdade através da imaginação, vencedor de três prêmios no Festival de Gramado/89 (melhor filme, diretor e ator). O filme, aliás, é citado na canção Cinema Novo, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, do disco Tropicália 2, o que por si só já representa uma carta de apresentação.

Realizado com visível esforço e poucos recursos, Eu me Lembro foi consagrado em 2005 como o grande vencedor do 38º Festival de Brasília. Venceu ali sete troféus: melhor filme, diretor, ator coadjuvante, atriz, atriz coadjuvante, roteiro e prêmio da crítica.

Navarro realiza aqui a procura de compor um retrato de geração, tendo como protagonista um personagem visivelmente autobiográfico, Guiga (interpretado em diversas idades por quatro atores, sendo Lucas Valadares na idade adulta). Contado com lentidão e em linha reta, sem flashbacks, o enredo trata da geração que nasceu nos anos 50, viveu a efervescência política e comportamental dos anos 60, sofreu a ditadura pelos anos 70 e 80 e enveredou por dois caminhos: entrou na luta armada ou caiu no “desbunde”, a viagem individualista no sexo e nas drogas. Um painel que é temperado com excepcional humor e uma cuidadosa pesquisa musical.

Ao mesmo tempo que se localiza a trajetória do personagem historicamente, relacionando sua vida com fatos marcantes da época – o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954, e do poeta Torquato Neto, em 1972; o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975 – não se perde de vista a sua subjetividade. Assim, acompanha-se uma infância sem maiores problemas, numa Salvador ainda bem provinciana, com uma educação católica contrabalançada pelas naturais pulsões sexuais: que levam o menino Guiga a espionar a tia tomando banho de chuveiro.

A difícil relação com o pai (Fernando Neves), sempre mediada pela mãe (Arly Arnaud), delimita a dimensão psicológica do personagem. Este relacionamento com o pai levará, em última instância, o jovem Guiga a procurar o mundo lá fora, abrindo-se às experiências comportamentais e com as drogas numa comunidade hippie. Neste trecho do filme, comparece numa ponta o talentoso ator baiano João Miguel (protagonista de Cinemas, Aspirinas e Urubus).

Eu Me Lembro é caracterizado por estes retratos afetivos, de preocupação com o passado, de busca da delicadeza, de um resgate das relações amorosas entre as pessoas. Uma procura que não é nem um pouco banal diante da brutalidade da vida cotidiana no Brasil. O filme é um esforço imperfeito, mas que convida a visita.

Neusa Barbosa


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