Gangues de Nova York

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Crítica Cineweb

05/02/2003

Neste épico grandioso, que sonhava fazer há 30 anos, o diretor Martin Scorsese colocou toda a paixão, técnica e obsessão de que seu sangue siciliano foi capaz. O ponto de partida foi a leitura do livro Gangues de Nova York, do jornalista Herbert Asbury, um instigante mergulho na sociologia do submundo da cidade no século XIX, publicado em 1928. Mas o filme tem uma moldura ficcional própria, criada pelos roteiristas Jay Cocks, Steven Zaillian e Kenneth Lonergan. E aí Scorsese foi capaz de instilar todo som e fúria que caracteriza seu melhor cinema, desde Touro Indomável (1980).

Nas ruas desse lugar, conhecido como Cinco Pontos - que ficava ao sul da ilha de Manhattan, nas imediações do porto de Nova York, e do que são hoje Wall Street e o SoHo - corria sangue quase todos os dias. No período coberto pela história (1846-1863), o local era um território disputado entre inúmeros bandos e raças, sempre de armas em riste para esmagar o inimigo, já que nesta guerra não se faziam prisioneiros. Leonardo DiCaprio interpreta Amsterdam Vallon, filho de um líder irlandês, o "pastor" Vallon (Liam Neeson), assassinado pelo rival, que atende pelo nome auto-explicativo de Bill the Butcher (açougueiro) - este, encarnado por um Daniel Day-Lewis cuja habitual pinta de galã se desfaz atrás de cabelos desgrenhados, um enorme bigode e um olho de vidro, além de uma insaciável disposição para a guerra.

Amsterdam cresce num orfanato, alimentando seu ódio. Quando sai dali, sua primeira providência é jogar longe a Bíblia que o obrigam a levar - mostrando que sua disposição, dali para a frente, é bélica. O rapaz é um dos muitos descendentes dos irlandeses que diariamente desembarcam no porto novaiorquino. Ganham instantaneamente a cidadania americana aqueles que, em troca, aceitam lutar na Guerra da Secessão. Naquele momento, a abolição da escravatura dividia os EUA ao meio e os irlandeses que fugiam da fome em sua terra natal entravam como soldados dessa causa que nem era sua.

Para políticos como William 'Boss' Tweed (Jim Broadbent), os irlandeses eram a massa de manobra ideal para serem escalados como eleitores - em troca de seus votos, ele lhes oferece casa, comida e trabalho. Nos Cinco Pontos, os irlandeses eram ostensivamente odiados pelos autodenominados Nativistas liderados por Bill the Butcher, pessoas que haviam lutado pela independência contra os ingleses e que se julgavam os únicos legítimos americanos.

É no ninho da serpente, na própria casa de Bill, que o recém-chegado Amsterdam vai ganhar um lugar de destaque, sem que o outro saiba que o rapaz é o filho do inimigo que ele massacrou mas que admira abertamente - a ponto de Bill manter um retrato de Vallon num lugar de destaque em sua sala, como um troféu de caça.

A voz feminina nesta história é a de Jenny Everdeane (Cameron Díaz), uma ladra de mãos mais rápidas do que o olhar dos donos das carteiras, que ainda têm para distraí-los a estonteante beleza da moça. Órfã que sobreviveu por sua conta nesse mundo dominado por instintos violentos, ela se torna objeto do desejo de Amsterdam - e um motivo a mais para confronto entre os dois.

Há espectadores e críticos que se ressentem de um certo distanciamento, bem como da dificuldade de identificação com um herói. Afinal, esta é uma história coletiva e só há heróis impuros aqui. Um filho (DiCaprio) que veio vingar a morte do pai e foi de certo modo cooptado pelo encanto perverso de seu assassino (a interpretação de Day-Lewis é, como sempre, estupenda). Um líder tribal (Day-Lewis) que mobiliza todo o seu talento feroz para dominar e abater. Uma mulher (Cameron) que usa charme, trapaça e o que mais precisar para manter-se viva e livre. Um político (Broadbent) que manipula instrumentos da democracia em proveito próprio. Entre todos, estendem-se as linhas de uma receita de sobrevivência ao meio, hostil no limite, que passam pela rendição, a traição e o servilismo, até por um certo determinismo social decorrente da luta de classes. Uma luta que o filme declara de maneira transparente ao alternar as imagens sujas destes Cinco Pontos com as ruas limpas de Uptown, a cidade dos ricos.

Esta visão de uma cidade partida, curiosamente, traça um paralelo entre o filme de Scorsese e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, ambos nutridos da mesma violência tribal, da mesma urgência que brota de uma sociedade desigual, onde a civilização ainda não está estabelecida. No caso do filme de Scorsese, nos Cinco Pontos a situação-limite é a maior batalha campal da história de Nova York, em 1863, na esteira da convocação compulsória para a Guerra de Secessão. No caso do filme de Meirelles, é a guerra do tráfico que domina as ruas do bairro de Cidade de Deus, fora tantos outros bairros do país, infelizmente, ainda sem solução.

Outro inesperado paralelo entre o filme americano e o Brasil está na que talvez seja a melhor frase de seus diálogos: "Eleições não se ganham com votos, ganham-se na apuração". Dito pelo político corrupto Tweed, o comentário cínico define tanto a fraude eleitoral que conduziu ao poder o atual presidente americano, George W. Bush - com uma providencial mãozinha do irmão, Jeb, no estado que este governa, a Flórida - quanto alguns remotos rincões do Brasil coronelista.

É o melhor filme do Scorsese em anos, e um trabalho extremamente pessoal - uma façanha em se tratando de uma megaprodução repleta de tudo o que a acompanha. Ou seja, um super-orçamento (US$ 100 milhões, o maior dos 22 anos da história da produtora Miramax), centenas de extras, maquiagem e figurinos para toda essa tropa, cenários (montados na Cinecittà romana), efeitos, brigas homéricas com o produtor, o voluntarioso Harvey Weinstein. Por conta do enfrentamento dos temperamentos do diretor e do produtor, há quem garanta que os bastidores foram quase tão ferozes quanto o que se vê em cena, ao menos verbalmente.

Weinstein não ficou feliz com o que considerou excessos do filme: custos, tempo de filmagem, violência, duração. A estréia, prevista para o primeiro semestre de 2002, acabou só acontecendo perto do Natal, nos EUA. As críticas positivas e os prêmios - como os Globos de Ouro para o diretor e a canção original, The Hands That Built America, do U2 - tendem a deixar para trás esses conflitos. O que resta, afinal, é um filme que, falando das origens da América, é muito menos auto-indulgente do que seria nas mãos de qualquer outro diretor americano. Scorsese olha para a formação de sua cidade com olhos bem pouco românticos, o que, para alguns americanos pode soar até impatriótico. A verdade é que Scorsese fez o seu evangelho apaixonado sobre as origens imperfeitas da sua Nova York e, por extensão, de seu país. E, em que pesem as interferências do produtor (visíveis especialmente numa imagem no final do filme, evocando o 11 de setembro), seu filme resultou íntegro, digno. Nunca antes Scorsese esteve tão apto a receber seu Oscar, se é que desta vez haverá disposição da Academia de premiá-lo.

Cineweb-7/2/2003

Neusa Barbosa


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