A Criança

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Sinopse

Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François) são dois jovens que vivem fora das convenções, não têm emprego, nem perspectiva de um futuro. Ele ganha dinheiro de pequenos furtos, com a ajuda de outros pré-adolescentes. Quando nasce o filho do casal, surge a oportunidade de uma nova vida. Porém, o rapaz não se mostra interessado nisso, e vende a criança.


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Crítica Cineweb

22/05/2006

Um ano depois de ganhar a Palma de Ouro em Cannes, chega aos cinemas brasileiros o drama A Criança, dirigido e roteirizado pelos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Primando por um cinema extremamente humanista, os dois são considerados alguns dos melhores cineastas em atividade. Essa distinção não acontece apenas por sua temática, que sempre aborda um viés social, mas também por uma identidade estética de seus filmes. Câmera na mão, nervosa, e enquadramentos bem próximos da nuca de seus atores faz com que seja fácil identificar um filme dirigido por eles.

Aliada às belas imagens, os Dardenne buscam uma história humana, com personagens limítrofes lutando para manter – ou recuperar – algo que perderam, geralmente um valor moral, embora metaforicamente esse seja representado por algo material. Em Rosetta, também premiado em Cannes (e inédito no circuito comercial brasileiro), a protagonista perde o emprego e faz de tudo para ter um trabalho. A questão, para a personagem, não é um emprego para se sustentar, mas sim, para manter um lugar na sociedade. No mundo contemporâneo, quem não trabalha, não produz, conseqüentemente não existe.

Aqui, quem parte na sua jornada de busca do valor perdido é o jovem Bruno (Jérémie Renier), um jovem que parece ser guiado por um código moral pessoal. Vivendo numa cidade industrial, longe dos cartões postais europeus, não lhe resta muito o que fazer da vida. Ele não pensa em trabalhar (“Trabalho é para trouxas”, diz), e vive de pequenos furtos praticados com a ajuda de garotos menores do que ele.

Numa das primeiras cenas do filme, ele encontra Sonia (Déborah François) que traz um bebê em suas mãos. A situação é tão estranha para os dois, que mais parecem estar segurando um boneco e não o filho deles que acabou de nascer. Os dois, na verdade, são duas crianças quase tão despreparadas para o mundo quanto o recém-nascido. Sem ter onde ficar, pois Bruno alugou o apartamento onde moram, eles se instalam num albergue para passar a noite. Depois de conseguir um dinheiro, o rapaz compra um carro importado e um carrinho de bebê. Por acaso, alguém menciona a Bruno que vender uma criança pequena pode dar muito dinheiro.

Embora essa informação pareça passar despercebida, mais tarde ele irá em busca de contatos para vender seu filho recém-nascido, a quem Sonia batizou como Jimmy. A transação é rápida e Bruno recebe os detalhes de como proceder via celular. Tudo acontece com uma rapidez assustadora e dolorosa para o público – uma vez que o pai não está ligando para a criança; como ele mesmo diz, 'é fácil fazer outro'.

Porém, os resultados desse comércio saem do controle de Bruno. A reação de Sonia é inesperada para ele. O rapaz não consegue perceber que ela não age conforme o mesmo código dele. É nessa hora que ele percebe que está correndo um grande risco. O roteiro, então, passa a contar a tentativa dele recuperar seu filho.

A ambigüidade de todo o filme começa com o título. Se numa primeira leitura, a palavra ‘criança’ se refere ao recém-nascido que muda a ordem pré-estabelecida da vida de Bruno, o termo também se aplica à condição do casal. Bruno é a verdadeira criança do filme, não apenas num significado metafórico do termo, mas também psicológico e social. Ele e Sonia fazem brincadeiras e birras infantis.

Bruno é um personagem que transita na ambigüidade. Se não é capaz de ser pai de seu próprio filho, ele é uma figura paterna convincente a um grupo de jovens trombadinhas que lhe ajudam – tal qual o personagem Fagin, de Oliver Twist. O cuidado que ele tem com um garoto em especial chega a ser comovente, pois faz pensar que ele poderia desempenhar o papel de pai, se tivesse vontade, é claro.

Por terem iniciado a carreira como documentaristas, os irmãos Dardenne são capazes de imprimir um inconfundível estilo naturalista em seus filmes. A câmera está cada vez mais próxima de seus personagens, criando uma intimidade claustrofóbica entre a platéia e aqueles que estão na tela. Porém, se em O Filho a câmera está nessa condição o filme todo, em A Criança temos um espaço entre as lentes e Bruno, no início. À medida em que o personagem percorre seu calvário, a câmera se aproxima dele e vamos nos tornando mais íntimos de sua condição, e passamos a acreditar na possível redenção.

Sem buscar explicações psicológicas ou sociológicas para seus personagens, A Criança pinta um retrato que se abstém de julgamentos. Aliás, parece ser fácil julgar e condenar Bruno por seus atos. Mas as imagens finais lançam uma nova luz sobre um possível futuro. Não é possível determinar se será melhor, mas é bem provável que diferente do passado.

Alysson Oliveira


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