Retratos de Família

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Locais de filmagem


Sinopse

George (Alessando Nivola) leva sua mulher Madeleine (Embeth Davidz) para conhecer sua família. Ela, uma refinada marchand, estranha o modo de vida da cidade pequena. Porém, a pessoa mais feliz com a visitante é a cunhada Ashley (Amy Adams), que está grávida, e para quem qualquer coisa é motivo de alegria.


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Crítica Cineweb

08/05/2006

“Todas as famílias felizes são iguais”, dizia Tolstoi, “as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Porém, aquela apresentada na comédia melancólica Retratos de Família não se encaixa em nenhuma das categorias. Eles não são felizes, mas também não são infelizes. Ao mesmo tempo, não têm uma maneira peculiar de viver e, ainda assim, não são iguais às outras. Quem são essas pessoas, os pais, irmão e cunhado de George (Alessando Nivola)?

É exatamente isso que Madeleine (Embeth Davidz) parece se perguntar quando começa a conhecê-los. São pessoas comuns, mas estranhas. O pai Eugene (Scott Wilson) fala pouco, prefere ficar na sua marcenaria; a mãe Peg (Célia Weston) é ranzinza; o irmão Johnny (Ben McKenzie) é a pessoa mais grossa e mal-humorada do mundo; só sobra a cunhada hiperativa e grávida Ashley (Amy Adams), que com a sua inocência e empolgação sem medida acaba se tornando uma adorável inconveniente.

Não é por acaso que Madeleine, uma refinada marchand, começa a se sentir uma estranha no ninho. Sua polidez é objeto de veneração e repugnância por seus novos familiares. Ashley fica deslumbrada com a nova cunhada, quer que se tornem grandes amigas. Já a sogra acha que a moça não é boa o bastante para seu filho, que, aliás, não aparecia em casa há três anos. George, por sua vez, começa a surpreender a sua mulher com características que ela não conhecia.

Retratos de Família é um fruto típico do melhor que o cinema independente norte-americano pode gerar. Aqui, como não há amarras de grandes estúdios, grandes obrigações financeiras, o diretor estreante Phil Morrison tem obrigação apenas com o seu filme e suas ambições. O roteiro, do também estreante Angus MacLachlan, foge da típica comédia romântica e caminha em direção a um estudo de personagens complexo e delicado, delineando emocional e psicologicamente as pessoas que habitam o filme.

Nesse sentido, Ashley é a mais interessante e complexa. A personagem poderia ter caído facilmente numa caricatura, mas o carinho que o diretor e a atriz têm por ela transforma-a na mais humana e encantadora de todos. Ingênua e imensamente empolgada, Ashley não poderia ser caracterizada como uma Poliana, pois esta vê apenas o lado bom das coisas - o que implica na existência de um lado ruim. Aqui, ela simplesmente desconhece que algo possa ter uma face negativa. Em tudo ela vê possibilidade de novas descobertas. E Madeleine representa um novo continente a ser explorado.

Morrison e MacLachlan não fazem julgamentos, mas expõem a miopia que consome a sociedade americana tanto do lado dos metropolitanos quanto dos caipiras. Madeleine, apesar de simpática, olha de cima os seus parentes e prefere a companhia de um pintor simplório, cuja arte quer expor em sua galeria. Na outra categoria, esse mesmo pintor representa uma parcela da população que parou no tempo, que vive das glórias passadas do sul dos Estados Unidos. Ele diz nunca ter visto um afro-descendente e não confia em judeus.

Cada vez mais raro no cinema norte-americano, Morrison é um cineasta que confia mais no poder das imagens à exaustão discursiva. Assim, o vazio emocional de seus personagens é traduzido com sofisticação em imagens que mostram a casa onde moram vazia, desabitada. Ou então quando Madeleine entra na casa de seus sogros pela primeira vez e esbarra em um pássaro de porcelana que está enfeitando a parede, quebrando-o. Isso é um anúncio da liberdade da família que está prestes a ser sacrificada com a presença deste elemento estranho.

As famílias desenvolvem estranhos mecanismos de preservação quando há uma outra pessoa coabitando o seu espaço. Peg, por exemplo, insiste em mostrar à nova nora o quão pouco esta sabe sobre George. Isso fica cada vez mais claro até o momento em que o rapaz canta um hino numa reunião religiosa. Veja como os olhos de Madeleine vão se modificando indo do susto a um quase-delírio. São esses pequenos detalhes que dão credibilidade emocional ao filme, fazendo com que seu público perceba que ali não se representa, mas se vive a vida, que aquelas pessoas não são simples personagens, mas seres humanos que respiram, comem, dormem, amam e sofrem.

Alysson Oliveira


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