Boa Noite e Boa Sorte

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Sinopse

Nos anos 50, os EUA vivem o pesadelo da perseguição a comunistas, reais ou não, promovida pelo senador Joseph McCarthy. O jornalista Edward Murrow (David Strathairn), apresentador de um programa de TV, denuncia os abusos e expõe-se a ser perseguido também.


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Crítica Cineweb

30/01/2006

O novo filme de George Clooney traça o seu caminho através de uma série de transgressões à superficialidade das normas-padrão de Hollywood – a fotografia em preto-e-branco, o fato de ser um filme intensamente falado e até mesmo o ostensivo fumo do protagonista (um comportamente banido das telas americanas por uma correção política um tanto deslocada). Estas e outras características situam a história como uma densa reflexão sobre a possibilidade de discutir idéias dentro do jornalismo, mesmo naqueles períodos históricos em que o mais alto poder usa de meios sórdidos para impedi-lo. Um enredo ambientado no passado mas de atualidade permanente.

A grande arma de Boa Noite, e Boa Sorte é sua sutileza sóbria, que soma todos os seus mínimos detalhes de maneira a conseguir um alto impacto de conteúdo. O que consiste num equilíbrio não muito fácil de conseguir, ainda mais tendo como um dos personagens de sua trama, assumidamente semidocumental, ninguém menos do que o senador Joseph R. McCarthy. Um dos vilões mais notórios da História, que só perde mesmo para Adolf Hitler, McCarthy apresenta-se em imagens de arquivo reais – um recurso esperto da direção, que evita a George Clooney a acusação de manipulador na composição da imagem do senador. O que não evita ao espectador uma estranha sensação de incredulidade quanto às falas e expressões faciais do personagem, aos olhos de hoje incrivelmente caricato.

O foco está no jornalista Edward R. Murrow (David Strathairn), apresentador de um programa de entrevistas na rede CBS, entre os anos 40 e 50, que se pautou por um rigor incomum na investigação de suas reportagens – uma característica que deveria ser inerente à profissão mas, como se sabe, não o é, ainda mais em tempos de discussão ideológica maniqueísta como no macarthismo. Crítico em relação à caça aos comunistas, reais ou imaginários, promovida pela famosa comissão liderada pelo senador, o jornalista Murrow abriu espaço a vítimas desta perseguição em seu programa e virou, ele mesmo, alvo de McCarthy.

A direção acerta em não se satisfazer em retratar o confronto entre Murrow e McCarthy, que ocorreu em março de 1954, embora nunca se duvide de que lado o filme está. Desde a primeira cena, empenha-se em compor com autenticidade o ambiente da emissora, seus jornalistas, o ritmo e as pressões do trabalho, internas e externas. As conversas entre Murrow e seu patrão, Paley (Frank Langella), ilustram com dramática honestidade os dilemas com que têm de lidar – o maior deles, a crucial necessidade da imprensa de nutrir-se da verdade, para manter sua credibilidade, e também a de ter lucro e anunciantes. Ao não mascarar este conflito básico e mostrar as concessões que Murrow tem de fazer de vez em quando – como entrevistar celebridades em seu programa -, a história só ganha mais força.

O título, que remete à saudação com que Murrow encerrava invariavelmente seu programa, assume um significado de fina ironia. Afinal, em tempos em que todo mundo podia acusar todo mundo de comunista, destruindo vida e carreiras (como aconteceu com o roteirista Dalton Trumbo e o escritor Dashiell Hammett, que foi preso), era mesmo preciso ter muita sorte para enfrentar cada noite.

Ao diretor e roteirista Clooney, que volta pela segunda vez a um trabalho de direção numa história ambientada na televisão (o primeiro foi Confissões de uma Mente Perigosa), não se poderá negar conhecimento de causa. Ele nasceu no meio televisivo, filho de um jornalista de Cincinatti, e começou como ator de séries de TV, alcançando a fama em Plantão Médico. Bem menos previsível era que não levasse tão a sério a pinta de galã e se tornasse um diretor tão elegante, interessado em histórias de espectro tão amplo para comentário e reflexão.

O filme concorre em seis categorias do Oscar 2006: filme, diretor, ator (David Straithairn), roteiro original, fotografia e direção de arte.

Neusa Barbosa


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