Crime Delicado

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País


Sinopse

Antônio Martins (Marco Ricca) é um crítico teatral sério e respeitado. Tem uma vida regrada, onde tudo está sob controle. Até o dia em que conhece uma jovem (Lilian Taublib), que o intriga a partir de um detalhe físico. O jornalista entra num triângulo que envolve também um pintor mais velho (Felipe Ehrenberg).


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Crítica Cineweb

23/01/2006

Com este filme, o diretor Beto Brant arrisca-se fora do território conhecido – e acerta em cheio. A violência, urbana ou política, que demarcou o território dos três primeiros filmes do diretor paulista Beto Brant – Os Matadores (1995), Ação Entre Amigos (1998) e O Invasor (2001) – é substituída agora pelo mundo das artes. Um crítico teatral, um pintor e uma jovem estão no centro de uma narrativa que explora as tensões entre arte e criação no teatro, na pintura e no próprio cinema.

Longe de representar uma incursão num terreno desconhecido, o teatro está na origem da formação do diretor, que freqüentou nos anos 80 um curso de atuação em São Paulo, na escola do ator Wolney de Assis (que se tornou protagonista de seu longa de estréia, Os Matadores). Um de seus colegas era Maurício Paroni de Castro, hoje diretor teatral um dos cinco roteiristas de Crime Delicado – ao lado do próprio Brant, do escritor Marçal Aquino (co-roteirista em todos os seus filmes), do ator e produtor Marco Ricca e do advogado Luiz Francisco Carvalho Filho.

Adaptando com muita liberdade o livro Um Crime Delicado, de Sérgio Sant´Anna, o roteiro supera o tom unilateral da obra original, que conta com um único narrador, o crítico teatral Antônio Martins. No filme, ganham voz também a jovem (Lilian Taublib) por quem o crítico (Marco Ricca) se apaixona e o pintor que é seu rival (Felipe Ehrenberg).

Desafio maior foi encontrar a atriz certa, pois é parte essencial da trama que a moça tenha uma deficiência física. O acaso de uma conversa entre Brant e a jornalista carioca Susana Schild no Festival de Cannes de 2004 facilitou o encontro, revelando o talento da estreante Lilian Taublib, de 26 anos. O impacto da entrega de Lilian à sua personagem foi tanto que ela acabou escolhida pela imprensa carioca como a musa do Festival do Rio, em setembro de 2005 - onde Crime Delicado teve sua primeira exibição pública, vencendo o troféu de melhor diretor e o Prêmio Especial do Júri da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (Fipresci).

A arte entra no filme também de maneira documental. Três trechos de peças teatrais – Confraria Libertina, Woyzeck, o Brasileiro e Leonor de Mendonça – intercalam a ação, revelando a rotina de trabalho do crítico e também criando metáforas para os sentimentos incontroláveis que começam a dominá-lo, como o ciúme. Uma exposição de artes plásticas, Corpos Divergentes, é vista bem no meio do filme. Felipe Ehrenberg, ele mesmo artista e adido cultural do México em São Paulo, interpreta o pintor Jose Torres Campana e aparece pintando um quadro. Três telas de Ehrenberg, aliás, ficaram expostas por um dia na 26ª Bienal Internacional de São Paulo em 2004, onde se ambienta a cena final, construindo mais uma entre as muitas pontes entre arte e realidade que sustentam Crime Delicado.

A escolha do nome do personagem do pintor Jose Torres Campana sinaliza outra discussão fundamental em Crime Delicado, o conflito entre valor artístico e impostura. No livro de Sant´Anna, o pintor chama-se Vitório Brancatti. Mas o mexicano Ehrenberg ponderou a Brant que o sobrenome italiano não combinava com o seu sotaque. Sugeriu então rebatizá-lo a partir de uma variação do título do livro Jusep Torres Campalans, de Max Aub (1903-1972), autor espanhol radicado no México. Trata-se da falsa biografia de um artista, tão consistentemente elaborada por Aub que este até insere entre suas páginas ilustrações do suposto protagonista – na verdade, feitas pelo próprio escritor. A obra não foi traduzida no Brasil.

Uma das maiores qualidades deste trabalho está na capacidade de revelar muitas camadas a cada visita – e seria conveniente que espectadores se dispusessem a vê-lo mais de uma vez. À primeira vista pode causar estranheza, o que em si é uma qualidade. Brant escolheu um caminho fora de seu passado e com isso amadureceu sua técnica. O ano mal começou mas já se reconhece aqui um dos filmes mais ousados e instigantes do ano.

Neusa Barbosa


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