Rosetta

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Crítica Cineweb

03/02/2003

O despojamento da dramaturgia expõe até os ossos o drama de Rosetta (Émilie Dequenne), a heroína despossuída desta pequena história que vibra nas fendas do viés econômico de nosso tempo. A mocinha faz de tudo para sobreviver, vende roupas usadas, enterra na lama seu pouco dinheiro. Sozinha em seu quartinho, à noite, repete para si mesma: "Meu nome é Rosetta", como se até essa identidade mínima lhe pudesse ser roubada.

A menina vive com a mãe (Anne Yernaux), mas nesta família incompleta os papéis estão dolorosamente invertidos. É a filha quem tenta tomar conta da mãe, uma alcoólatra incontinente que sempre que pode se apodera do dinheiro suado da garota. No começo, Rosetta até tem um emprego numa fábrica, mas perde-o pouco depois. Despedida, ela se tranca, dá trabalho à segurança, resiste aos berros para sair do local. "Não é justo", grita a plenos pulmões. Mas seu ato isolado de desobediência civil resulta inútil, diante dos argumentos implacáveis da redução de custos, do downsizing, da terceirização galopante. Perante toda essa terminologia da racionalidade econômica, Rosetta é peixe miúdo, como os que ela pesca clandestinamente no lago do camping infecto onde mora.

É com o rigor de ex-documentaristas que os irmãos Dardenne (O Filho) retratam o cotidiano de Rosetta, uma coleção de rituais mecânicos e brutalizadores. Não sobra muito espaço para essa menina existir, quanto mais sonhar. Ela não pode sair, dançar, namorar, tudo o que uma garota normal de sua idade faria. Sem emprego, tudo lhe é negado, toda cidadania, toda compaixão, até a dignidade torna-se um luxo. O imperativo da sobrevivência se sobrepõe a tudo o mais. Rosetta é a outra ponta de um mundo rico. Mesmo que habitante do Primeiro Mundo, vive pior do que muitos do Terceiro, ainda que não seja estrangeira nem ilegal. É o retrato visceral de uma juventude roubada.

O momento em que visita um raro amigo, Riquet (Fabrizio Rongione), e este lhe mostra um disco e compartilha seu sonho de ser baterista flagram um raro contato humano, tão desajeitado pela falta de hábitos de afeto desta mocinha cuja energia é, apesar de tudo, admirável. Reduzida a quase bicho, Rosetta teima em querer existir e proclama bem alto sua humanidade sitiada por todos os riscos. A interpretação intensa de Émilie Dequenne valeu-lhe um merecido troféu de melhor interpretação feminina em Cannes/99, onde o filme venceu igualmente a Palma de Ouro.

Neusa Barbosa


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