As Três Marias

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Crítica Cineweb

03/02/2003

Partindo de um cordel para um filme, num clima marcado pela gravidade de uma tragédia grega, a história já aponta para suas intenções literárias. É um drama pesado, com cores de faroeste, iluminado pela originalidade de ser conduzido por quatro figuras femininas magníficas: a mãe, Filomena Capadócio (Marieta Severo), e suas três filhas Marias, a primogênita Maria Francisca (Julia Lemmertz), Maria Rosa (Maria Luísa Mendonça) e a caçula Maria Pia (Luiza Mariani). Elementos mais do que suficientes para compor um filme forte. Mas a promessa não se realiza inteiramente por conta de alguns equívocos da direção.

A trama é uma espécie de Rei Lear pelo avesso, onde a delegação do poder pela mãe é apenas relativa. Filomena perde o marido e os filhos, assassinados brutalmente a mando de Firmino (Carlos Vereza) - um antigo amor de sua juventude cuja frustração pela perda remota desta mulher ressuscita de repente num surto de violência. Vingança com vingança se paga neste universo definido vagamente como um sertão profundo. Filomena chama as filhas e ordena que procurem cada uma um matador, para devolver o troco na mesma moeda.

Os matadores são três estações do mal na Terra, um mais sinistro do que o outro. Zé das Cobras (Enrique Díaz), já vem definido pelo nome - seu método é introduzir uma das serpentes venenosas de sua criação nos aposentos do cabra marcado para morrer. Um matuto de poucas palavras e muita obsessão: uma delas, jamais dirigir a palavra a uma mulher. Por conta disso, sua abordagem por Maria Francisca exige um intérprete, o vagabundo Catrevagem (o magnético Lázaro Ramos), que cria com suas intervenções o único alívio cômico de todo o filme.

Jesuíno Cruz (Wagner Moura), o assassino que corta suas vítimas em dois, não é menos impressionante - e o fato de que viva numa prisão, de onde sai de tempos em tempos para mortes por encomenda, cujas rendas divide com seus carcereiros, diz tudo a respeito do universo acima da lei em que se move toda a história. Não menos significativo nesse aspecto é que o terceiro matador seja um policial, o cabo Tenório (Tuca Andrada).

Todos os personagens se encaixam nesse horizonte muito áspero sem nenhuma psicologia - não se está aqui à procura de explicações. É um mundo primitivo, determinista, em que cada situação não parece comportar mais do que uma escolha. Mas todo o comando que Filomena imagina ter a respeito do futuro naufraga nas incertezas da sorte - as filhas terão, por isso, de sujar as próprias mãos. O círculo infernal da vingança aprisiona aqueles que, como Filomena, crêem que "é preciso dar de comer ao ódio".

O diretor Aluizio Abranches (que estreou com Um Copo de Cólera) confirma sua atração literária e, mais uma vez, sucumbe a ela. Os diálogos são de uma beleza inegável, mas de difícil enunciação fora de um palco. Por aí, o ritmo emperra, apesar do talento que brota de todo este elenco, verdadeiramente esplêndido nos menores papéis. Mas falta especialmente imaginação à câmera para conduzir esta história limpidamente cruel num tom menos solene, que daria mais agilidade à narrativa. Resta uma coleção de bons momentos que nem sempre dão liga, num conjunto mais irregular do que se poderia esperar.

Cineweb-16/8/2002

Neusa Barbosa


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