Atirem no Pianista

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Crítica Cineweb

08/01/2003

François Truffaut precisava desesperadamente de um sucesso em seu segundo filme, Atirem no Pianista. Era uma jogada arriscada para um cineasta de 28 anos e que acabava de estrear em longa-metragem com Os Incompreendidos, prêmio de direção no Festival de Cannes em 1959. Numa tacada só, tinha de provar que a consagração tinha sido mais do que uma mera sorte de principiante. Contra as expectativas, ousou. Recusou a idéia de realizar outro filme sobre as angústias da adolescência e abandonou, momentaneamente, pelo menos, aquele primeiro alter ego que lhe correspondia tão bem, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud).

Truffaut não conseguiu seu sucesso - Atirem no Pianista foi, aliás, um de seus mais retumbantes fracassos de bilheteria. Em compensação, encontrou aí um novo alter ego em Charles Aznavour. O ator e cantor, um dos mais populares da França, era um reflexo até físico de Truffaut. Oito anos mais velho do que o diretor, compartilhava com ele o corpo miúdo e a mesma espécie de agitação, angústia e força de vontade. Depois de um primeiro contato em Cannes, em 59, no bar do Hotel Carlton, os dois reconheceram essa identidade e partiram para este projeto, que daria a Aznavour o que muitos consideram o melhor papel de sua carreira de ator.

Ironicamente, este que alguns consideram um filme menor de Truffaut marcou uma série de primeiros encontros definitivos: com o diretor de fotografia, ícone da Nouvelle Vague, Raoul Coutard, o compositor Georges Delerue e a roteirista Suzanne Schiffman, todos eles membros de um time constante que faria do pequeno estúdio do diretor, Films du Carrosse, a sede de uma das mais criativas experiências cinematográficas da França entre os anos 60 e 80.

Na época daquele primeiro encontro com Aznavour, Truffaut, um apaixonado desde sempre pelas histórias policiais, já pensava em filmar a novela de David Goodis, um dos autores americanos favoritos do diretor. Encontrou na história de Goodis o despojamento e a urgência que guiariam sempre sua própria forma de trabalhar. Apreciava neste enredo seu caráter de conto de fadas sujo, em que gângsters transitavam entre a paixão e o crime, uma dubiedade que tinha tudo a ver com um criador que começava a definir seu estilo.

O pianista Charlie Kohler (Aznavour) esconde um caráter de anjo caído. Toca num bar sórdido, o Mammy's, mas parece pairar acima desse mar de personagens duvidosos, prostitutas, malandros, pobres-coitados. Seus modos delicados traem sinais de um passado melhor que ele nunca comenta. Evita todo contato humano e parece só se importar com o irmãozinho, Fido. O lado oculto de sua biografia, porém, reaparece com a visita de outro irmão, Chico (Albert Rémy, o pai de Doinel em Os Incompreendidos).

Gângster em fuga, com muitos acertos de contas pendentes, Chico é uma das sombras com poder de arrastar Charlie ao submundo onde ele tenta não mergulhar de vez. A aparição termina por revelar a verdadeira identidade do pianista. Charlie, na verdade, é o pseudônimo de Édouard Saroyan, famoso pianista clássico de reconhecido talento. Mas a tragédia entrou em sua vida quando descobriu o preço pago por sua mulher (Nicole Berger) para que ele tivesse tanta projeção. Naufragaram o casamento e a carreira e Édouard virou Charlie no bar Mammy's.

Como é regra nos contos policiais, mulheres fatais governam as reviravoltas da vida dos homens. No caso de Charlie, é a garçonete do bar, Léna (Marie Dubois), quem decifra seus segredos. Uma outra, a Mammy dona do bar (Catherine Lutz), desencadeia o ato final que, novamente, coloca o pianista fora do seu eixo. Truffaut, ele mesmo um amante inveterado, identificava-se muito com a idéia de que as mulheres tinham o poder de alterar drasticamente o destino dos homens, até contra seus desejos. Mas ainda levaria alguns anos para que amadurecesse seus recursos dramáticos para expressar com mais clareza e sensibilidade este que foi um de seus credos na vida e na arte e encontrasse seu terceiro alter ego, Charles Denner, protagonista do muito autobiográfico O Homem que Amava as Mulheres (77).

Neusa Barbosa


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