O Diabo a Quatro

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País


Sinopse

Nas ruas de Copacabana, Paulo Roberto é um surfista maconheiro que passa o tempo seduzindo prostitutas. A ingênua empregada Maria Flor se apaixona por ele, mas é rejeitada por ser virgem. Ela procura a ajuda do cafetão Tim Mais, que a emprega na sua 'agência'. A moça também conhece na praia Waldick, um garoto que veio do interior e sonha ser apresentador de TV.


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Crítica Cineweb

13/07/2005

Premiada em Brasília (prêmio especial do júri e melhor ator coadjuvante para Jonathan Haagensen), a comédia O Diabo a Quatro marca a estréia na direção de longas de Alice de Andrade, filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), que dirigiu entre outros Macunaíma (1969) e O Padre e a Moça (1965).

Como a obra-prima do pai, Macunaíma, o filme da diretora busca o interesse pelos contrastes do Brasil. Mas, enquanto ele já era experiente e seguro quando dirigiu a adaptação de Mário de Andrade, o longa de estréia de Alice esbarra em muita pretensão e num roteiro equivocado.

Não dá para esperar muito de uma comédia escrita por sete roteiristas - numa cozinha com tantos chefs, o prato nunca fica muito bom. Entre eles, estão a diretora e o comediante Evandro Mesquita, que, aliás, faz dois papéis no filme – nenhum com muita convicção, diga-se de passagem.

A expressão ‘diabo a quatro’, meio fora de moda atualmente, significa uma bagunça, um amontoado de coisas espantosas. A origem vem do teatro medieval, quando os autores colocavam quatro diabos em cena para fazer muito barulho e confusão.

Partindo dessa idéia, a diretora e seu time de roteiristas colocam em cena quatro pobres diabos que transitam pelas ruas de Copacabana. Paulo Roberto (Marcelo Faria, que estréia no cinema) é um playboy viciado em maconha que passa o tempo cantando garotas de programa para ficar com ele de graça. O segundo é Tim Mais (Marcio Libar) cafetão dono de uma empresa de acompanhantes. Waldick Soares (Netinho Alves) é um garoto vindo do interior, ingênuo, que sonha ser apresentador de televisão. Juntando essas três pontas está a babá Rita de Cássia (Maria Flor, de Quase Dois Irmãos).

Rita paquera pela janela do apartamento onde trabalha o surfista Paulo Roberto, filho de um senador (Ney Latorraca) e uma dondoca (Marília Gabriela), que passa o tempo seduzindo entregadores. Mas ele não se interessa pela moça por ela ser virgem. Ela acaba indo parar na Heaven Artistic Promotion, a empresa de Tim Mais, onde pretende ganhar experiência sexual para ficar com Paulo.

O garoto Waldick mora na praia, onde acaba conhecendo Paulo Roberto e o traficante China (Jonathan Haagensen, de Cidade de Deus), que costuma fornecer drogas para o playboy. O menino quer se tornar tão famoso quanto Fulvio Fontes (Mesquita), um ex-camelô que se transformou num famoso apresentador de televisão milionário que distribui prêmios nos seus programas – ou seja, um Silvio Santos.

Alice e os outros roteiristas colocam todos esses personagens no caos urbano de Copacabana, mostrando assim os contrastes entre os paradoxos do Brasil. Num mesmo perímetro mora um rico político e funciona um prostíbulo. O filho desse político é o mesmo que compra drogas (e permite que os mecanismos do tráfico continuem funcionando). O traficante, aliás, é filho de sua empregada (Zezeh Barbosa) e amigo de infância.

Dessa forma, a diretora esperar estar nos fazendo rir das mazelas de nossa própria sociedade. Mas, sempre é bom lembrar, que enquanto o roteiro força alguns pontos pendendo para o caricato, essas mesmas mazelas são reais, e muito pouco engraçadas, na verdade.

O Diabo a Quatro perde a chance de ser uma comédia à la Bendito Fruto, de Sérgio Goldenberg, lançada nos cinemas brasileiros já alguns meses. Nesse caso, o filme busca um olhar curioso para o paradoxo do fator racial na nossa sociedade. O personagem principal tem um caso há anos com sua empregada negra (também vivida por Zezeh Barbosa), mas não assume e tem vergonha disso.

Goldenberg mostra de forma humana e real os paradoxos da mistura racial no Brasil, enquanto Alice parece apontar para os dois grupos e dizer que todos têm culpa – uns mais e outros menos, talvez, enfatizando assim aquela atitude tão erroneamente paternalista, como uma cartilha ditando o que é politicamente correto dizer.

No fundo, O Diabo a Quatro se revela um filme de ‘achismos’. Marcelo Faria acha que interpreta. Evandro Mesquita acha que faz humor. Marília Gabriela acha que sabe atuar. Alice de Andrade acha que fez uma comédia ácida sobre a situação social do Brasil. E o espectador pode achar um filme melhor com que gastar o seu dinheiro.

Alysson Oliveira


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