Latitude Zero

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Crítica Cineweb

03/02/2003

O primeiro longa-metragem de ficção do diretor Toni Venturi, Latitude Zero, traz um embate entre dois personagens solitários e desesperançados num lugar árido e desolador, que em muitos momentos lembra Paris, Texas do alemão Wim Wenders, com roteiro de Sam Shepard. Venturi mostra um domínio da arte de fazer cinema como só os melhores cineastas conseguem.

Com um orçamento pequeno para uma produção tão bem cuidada, o diretor se cercou de excelentes profissionais. Ao lado do trabalho preciso dos atores, tem a direção de arte de Andréa Velloso, a cenografia de Helcio Pugliese, a fotografia de Jacob Solitrenick, a música de Lívio Tragtenberg que se fundem com precisão na história densa e que acabam se tornando também personagens da trama. A partir de uma peça teatral de Fernando Bonassi, de onde extrai diálogos econômicos e precisos, o roteiro foi elaborado para servir não só ao trabalho da atriz Débora Duboc e do ator Claudio Jaborandy, mas para explorar cada detalhe da produção. Nada está fora de lugar.

A solidão de Lena, uma ex-gerente de hotel do centro de São Paulo, grávida e abandonada pelo amante, se amplifica naquele bar-restaurante de beira de estrada, ao lado de um garimpo abandonado. O ritmo lento do início, bastante teatral, antes de incomodar, prepara a platéia para a desesperada tentativa da personagem em encontrar uma saída para o beco existencial onde foi lançada. A chegada de Vilela, de começo rechaçada, irá despertar aos poucos a sensualidade e sexualidade adormecidas em Lena. Este estranho pode muito bem ser o caminho da retomada.

Vilela, um PM com problemas na corporação, chegou até este lugar para esperar que tudo se acalme e possa voltar a São Paulo. Subalterno do amante de Lena, deixa a obediência e a amizade de lado quando vê a chance de retomar a vida longe dos seus problemas e construir um futuro ali. Para Lena, cansada de guerra, ele é apenas mais um sonhador. Mas com a insistência de Vilela, e mesmo dentro daqueles limites de desolação e abandono a que se entregou, a mulher antevê uma saída.

O desfecho para uma história de redenção e amor não poderia ser diferente naquele mundo inóspito, tanto em paisagem quanto em sentimentos brutalizados pelo ambiente e desilusões. Mesmo a gravidez é encarada e vivida por Lena como um terrível acidente de percurso. Seu distanciamento inicial daquela criança aparece escancarada num diálogo curto e ácido que trava com Vilela: "Esse calor, essa barriga". Ao que ele rebate com o chavão: "Tem um lado bom". E ouve a resposta definitiva: "O lado de fora". Alternando dor e desesperança com a busca do eterno retorno, a relação entre os dois vai se impregnando de violência, a única herança reservada aos deserdados.

Toni Venturi nos revela sem nenhum anestésico os grandes dramas vividos por pessoas comuns e à margem da abastada sociedade do país. Latitude Zero é ousadamente autoral e comprometido com a discussão que transcende questões meramente pessoais. É um filme que foge dos padrões hollywoodianos a nós impingidos atualmente: da paisagem desolada do Planalto Central direto para o estômago do espectador. Sem concessões e em uma única palavra: visceral.

Cineweb-8/3/2002

Ana Vidotti


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