Quanto Vale Ou É Por Quilo?

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País


Sinopse

Livremente inspirado no conto Pai Contra Mãe, de Machado de Assis, o longa de Sérgio Bianchi apóia-se nas contradições históricas do Brasil para mostrar um novo tipo de escravidão social.


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Crítica Cineweb

19/05/2005

Com uma predileção pela verborragia e provocação, Sérgio Bianchi é um diretor que chama a atenção pelo meticuloso trabalho de zombar das instituições brasileiras. Suas produções baseiam-se em revelar, a torrentes de sarcasmo, toda a grosseria dos velhos preconceitos nacionais, ridicularizando passagens da história oficial, e levando, assim, o espectador a refletir sobre os mecanismos de dominação social.

O seu mais recente trabalho Quanto Vale ou é Por Quilo? vem exatamente nesse caminho, ao colocar sob um mesmo prisma a escravidão brasileira do século XIX e as atuais iniciativas da sociedade civil organizada de inclusão da população de baixa renda. A corrosiva comparação leva a uma dedução dramática que se já tornou senso comum: “no Brasil, os séculos não se passam, se sobrepõe.”

Em uma lógica cruel, o diretor, que também assina o roteiro, não legitima o trabalho do que se chama terceiro setor, colocando-o – ao lado das ações ditas sociais – como mais uma forma de aproveitar-se dos escravos.

Escravo, entenda-se aqui, tanto os negros trazidos da África, quanto as crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos usados como moeda de troca pelas iniciativas não governamentais.

Tal como em Cronicamente Inviável (2000) e Romance (1988), Bianchi concatena diversas histórias, que se cruzam durante o filme. A veleidade da elite, as estratégias de militantes desonestos, o cinismo dos empresários inescrupulosos e a ambição de ativistas fracassados estão representadas na trama.

Como é o caso dos personagens de Herson Capri e Caco Ciocler, diretores de uma ONG que superfatura notas fiscais das ações de inclusão digital na periferia. Do outro lado estão os pobres e negros, que se mantém vítimas de um sistema perverso.

Numa época em que o politicamente correto está em voga, e empresas se desesperam para conseguir visibilidade social, o filme entra em cartaz como denúncia. Embora todas as histórias sejam fictícias, exceto os pequenos relatos extraídos de autos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro da época da escravidão, o filme engana.

Ao colocar dados reais ao lado da ficção, a linha da realidade se parte, confundindo o espectador entre o que afinal é verdade. Sergio Bianchi cai, assim, na armadilha que ele mesmo armou. Ao fazer uma ferrenha crítica ao terceiro setor no Brasil, o diretor não consegue sair da nebulosa terra da superficialidade – que o próprio autor abomina.

Comparar ação social com escravidão soa incoerente e um pouco exagerado, ainda mais quando mescla ficção com documental. Mas, esse é apenas um ponto em um filme repleto de acertos e com o sempre escaldante humor de Bianchi.

Rodrigo Zavala


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