Bom Dia, Noite

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Sinopse

Chiara (Maya Sansa) é uma jovem bibliotecária que leva uma vida dupla. É uma das militantes das Brigadas Vermelhas, grupo terrorista italiano que acaba de realizar sua ação mais sensacional: o seqüestro, à luz do dia, do primeiro-ministro democrata-cristão, Aldo Moro (Roberto Herlitzka). Enquanto o mantêm escondido num prédio de classe média e aparentam uma vida normal, os brigadistas fazem negociações e esperam que aconteça uma rebelião em seu apoio na Itália.


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Crítica Cineweb

28/04/2005

Remanescente de uma grande geração de cineastas italianos, a que pertencem Bernardo Bertolucci, Francesco Rosi e Ettore Scola, Marco Bellocchio marca seus 40 anos de carreira com um filme que atinge intensidade política, emocional e artística na mesma medida. Dissecando uma tragédia ocorrida em 1978 – o seqüestro e assassinato do primeiro-ministro italiano Aldo Moro -, a história sintoniza uma dramática atualidade, em outro tempo abalado pelo terrorismo, ainda que numa face muito diversa.

Tal como o brasileiro Cabra-cega, de Toni Venturi, Bom Dia, Noite avalia a militância guerrilheira através de um olhar do lado de dentro, numa abordagem que humaniza os militantes, sem no entanto deixar de explorar suas contradições.

Chiara (Maya Sansa) é uma jovem de vida dupla. De dia, é bibliotecária. Quando volta para casa, torna-se uma das militantes das Brigadas Vermelhas, grupo terrorista italiano que acaba de realizar sua ação mais sensacional: o seqüestro, à luz do dia, do primeiro-ministro democrata-cristão, Aldo Moro (Roberto Herlitzka). Mantendo a fachada de uma vida familiar normal, fingindo ser casada com Ernesto (Pier Giorgio Bellocchio), ela mantém uma rotina que não deve levantar a suspeita dos vizinhos, num prédio de apartamentos de classe média. O que leva o casal a aceitar, por exemplo, tomar conta do bebê da moradora ao lado ou deixar entrar na sala um padre que deseja abençoá-los.

Mantendo o foco em Chiara, consegue-se mergulhar na tensão vivida pelos militantes, especialmente ela. O duro líder do grupo, Mariano (Luigi lo Cascio), parece não ter as mesmas dúvidas. Aliás, não demonstra dúvida alguma, personificando a ortodoxia incontestável que, finalmente, levará à condenação de Moro.

Um dos momentos inspirados do filme é a cena de um almoço na família de Chiara – que naturalmente ignora sua militância -, no qual fica evidente o fosso entre estas duas gerações. Os tios da moça, militantes antifascistas na II Guerra, entoam canções dos partigiani, ou seja, membros da resistência italiana - aliás, identificados de maneira imprópria nas legendas como “guerrilheiros”, o que pode levar a platéia a não perceber claramente de quem se trata. Nesta situação festiva, contrasta-se a alegria dos velhos, que derrotaram um inimigo claro (os nazifascistas), e a nova, soturna, cerebral, mergulhada em leituras teóricas e ortodoxas, que parece confusa sobre quem é seu alvo.

Os diálogos entre o refém e seus captores são outro ponto alto. Neles, ficam expostos de maneira cristalina os argumentos dos dois lados, com inteligência, nunca com maniqueísmo – um verdadeiro feito no cinema moderno, muitas vezes rendido às simplificações banais que tanto agradam Hollywood. Nestas conversas entre Moro e, principalmente Mariano, fala-se de luta de classes, do que move a História, do proletariado, da religião. E, por melhores que sejam estas conversas, emerge muito claro o paralelismo das duas posições: da política e da cultura tradicional, representada por um Moro inegavelmente sereno e carismático, e do outro o militante radical, disposto a liderar as massas, ainda que elas se mostrem indispostas para isso.

Um dos momentos de maior perplexidade para os brigadistas no meio do seqüestro é justamente aquele em que se perguntam – mas por que, afinal, a rebelião não está brotando nas ruas, nos escritórios? Muito embora não se possa esquecer que a própria existência das Brigadas Vermelhas decorre da falência da cultura e da política tradicionais representadas por Moro para incorporar aqueles que estão desprovido de ambas. Uma incapacidade que será fatal.

Mais do que fazer um filme, Bellocchio está pondo o dedo numa ferida profunda da esquerda, que em seu país ganha contornos bem específicos. Afinal, a Itália foi a pátria do eurocomunismo, uma visão mais aberta da doutrina esquerdista, tendo à frente o líder Enrico Berlinguer, e que foi posta a perder, entre outras coisas, pelo assassinato de Moro. A face abatida do próprio Berlinguer, na igreja em que se celebra o culto fúnebre de Moro – uma das muitas imagens reais de noticiários inseridas no filme – é, aliás, um anúncio eloqüente do que vem a seguir. Berlinguer sabia que, a partir dali, o clima de caça às bruxas instaurado em nome da repressão ao terrorismo, inviabilizaria por muito tempo a esquerda. Um tempo que ele, pessoalmente, não teria, porque morreu seis anos depois e não teve sucessores à altura para retomar seu caminho.

Mesmo sendo a crônica de uma morte anunciada, o filme mantém um sintomático suspense. Prova viva é que, mesmo sabendo dos fatos, é difícil suprimir o sentimento para que a história tome outro rumo. E o filme torna tão vivos os acontecimentos, tão reais seus protagonistas, que há momentos em que se chega a crer que isto é possível. Chiara, o coração sensível da história, luta por uma alternativa menos drástica. Nessa personagem, Bellocchio deposita uma muito oportuna reflexão sobre a atônita esquerda que emergiu daquele drama e que parece ainda não ter encontrado outro rumo.

Neusa Barbosa


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