Um Filme Falado

Ficha técnica


País


Sinopse

Uma professora de história (Leonor Silveira) embarca com sua filha num navio rumo à Índia. A cada porto há uma nova viagem pela história da humanidade.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

20/04/2005

Manoel de Oliveira não está absolutamente preocupado com os impasses globalizados vividos nestes tempos entre a previdência do Estado e os candidatos à beira da aposentadoria. Aliás, esta é a última coisa que deve passar pela cabeça deste garoto-prodígio que teima, quase centenário, em ser precoce às avessas em seu Um Filme Falado.

O que fez desta vez o mestre? Teórica e praticamente o mesmo. Tudo como sempre, mas diferente. Humanista descarado, Oliveira é sempre um acadêmico formal, quase estático na sua relação entre cinema e teatro. Pois agora acrescente-se: ao descaramento de um autor acadêmico e formalista foi incorporado o atrevimento. Sim, porque a seqüência final de Um Filme Falado é de uma ousadia e uma transgressividade desconcertantes.

A helênica Leonor Silveira, uma das mais belas atrizes do cinema atual - é a professora de História da Universidade de Lisboa que viaja em cruzeiro marítimo com a filha pequena. O destino final é Bombaim, onde o marido, piloto civil, deve encontrar as duas para seguirem em férias. Durante a viagem, escalas estratégicas para Oliveira discorrer sobre os primórdios da civilização ocidental - Grécia, França, ruínas de Pompéia, Egito, Istambul. Em cada porto uma sintética mas essencial lição de História, transmitida com carinho e aprendida com atenção.

No navio, três mulheres famosas já na meia-idade, uma grega, outra francesa, a terceira italiana, cada uma falando a sua língua. A primeira é Irene Papas, cantora famosa; Catherine Deneuve é a empresária bem-sucedida, e Stefania Sandrelli faz a ex-modelo, símbolo de sabedoria existencial e do gosto pela vida. As três são convidadas para jantar na mesa do capitão, John Malkovich, americano de origem polonesa que fala o inglês, a língua universal contemporânea. Com elegância, cultura e discrição, cada um fala de si e, por conseqüência, dos próprios países.

Mas um aviso interrompe a agradável noitada. Na última parada, terroristas colocaram bombas de tempo no navio, que deve ser abandonado com calma, mas imediatamente. A garotinha portuguesa esquece a boneca no camarote e mãe e filha acabam ficando sozinhas a bordo, enquanto todos os passageiros já estão a salvo nos botes salva-vidas.

O refinamento, a beleza das imagens, a inteligência da visão crítica da civilização ocidental, a eloqüência significativa desta última jornada - uma viagem simultânea ao princípio e ao fim do mundo -, a finesse que transforma em emblema três das mais populares atrizes, a sofisticação carregada de simplicidade.

Carlos Eduardo Lourenço Jorge


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