8 Mulheres

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Crítica Cineweb

03/02/2003

8 Mulheres não é só um raro encontro de atrizes, gêneros, climas, matizes. No centro de seu sucesso, está o domínio do engenho de reverter expectativas que faz a mágica do cinema. As melhores surpresas vêm do desempenho do elenco, estelar, em campos inusitados. Nunca antes se viu uma intérprete tão técnica e séria quanto Isabelle Huppert revelar-se tão engraçada, nem a refinada Catherine Deneuve descabelar-se em cenas do mais puro pastelão. Sem contar que o filme registra o feliz primeiro encontro nas telas entre as já citadas Huppert e Deneuve, além de Fanny Ardant - que, por sua vez, não conhecia a veteraníssima Danielle Darrieux, que interpreta pela quarta vez a mãe de Catherine Deneuve. E o melhor de tudo é que todas, mais a rotunda Firmine Richard (da comédia Romuald & Juliette, com Daniel Auteuil), a magnética Emmanuelle Béart, e as jovens Virginie Ledoyen e Ludivine Sagnier, cantam e dançam em cena.

Nem por isso 8 Mulheres é um musical. As vozes das atrizes, colhidas ao natural, nem procuram encobrir seu despreparo para a função, como foi feito em Todos Dizem Eu Te Amo, de Woody Allen (que era um musical). O resultado é uma desafinação charmosa e leve, que serve de moldura perfeita ao que elas cantam, ou seja, antigos sucessos populares franceses, como Message Personnel, de Françoise Hardy, entoada por La Huppert, ou Pour Ne Pas Vivre Seule, de Dalida, por Firmine Richard. Baseado numa peça do francês Robert Thomas, escrita em 1961, trata-se de uma comédia dramática policial-musical que, como se fosse um navio governado pela tormenta, alterna sua direção a cada minuto, embalado na dúvida sobre quem, entre as oito mulheres, matou o único homem da família, Marcel (Dominique Lamure).

Este homem ausente ocupa o centro de todas as conversas das mulheres, isoladas numa bela casa, às vésperas do Natal, em 1950. Com os telefones cortados e a neve alta impedindo o deslocamento a pé ou de carro, o clima de isolamento contribui para a claustrofobia, que é um dos elementos-chave de um bom policial. Mas não é um policial em seu sentido estrito, hitchcockiano - é apenas uma curiosidade que Robert Thomas, o autor da peça original tenha vendido a Alfred Hitchcock outra de suas histórias, Piège sur un Homme Seul, que o diretor inglês morreu antes de filmar. Na verdade, descobrir quem matou Marcel, enquanto não há jeito de chamar a polícia, é apenas um dos divertimentos perversos desse octeto que alterna momentos doces e infernais a cada revelação sobre as intimidades de cada uma.

Augustine (Isabelle Huppert), solteirona hipocondríaca, tem um passivo impagável com a elegantérrima Gaby (Catherine Deneuve), a dona-da-casa - nada que a mãe de ambas (Danielle Darrieux), avarenta e beberrona, possa nem tente aplacar. Outra dupla de irmãs, Catherine (Ludivine Sagnier) e Suzon (Virginie Ledoyen), disputa a tapas suas diferenças de opinião e de afeto diante dos pais, Gaby e o morto. Uma devassidão bem cínica é assumida em partes iguais por Pierrette (Fanny Ardant), irmã do falecido, e as empregadas, Madame Chanel (Firmine Richard) e Louise (Emmanuelle Béart) - mas não há inocentes entre as demais.

A intriga campeia entre todas, mas justo porque o filme corre o risco de se tornar misógino, uma espécie de gaiola das loucas à beira de um ataque de nervos, o diretor Ozon insere de quando em quando uma surpresa para espantar um clichê, uma virada para afugentar a mesmice. Com maestria, compõe um filme adorável, que procura o entretenimento, mas não deixa de destilar nas entrelinhas densas camadas de ternura e nostalgia, lembrando que a solidão e a busca do amor governam a vida humana de maneira mais consistente do que a maioria de nós gosta de admitir. Assim, Ozon afirma uma versatilidade como diretor que se soma ao desempenho de seus excelentes dramas anteriores Sob a Areia e Gotas d`Água Sobre Pedras Escaldantes. Aos 35 anos - menos do que seis de suas oito atrizes - já é um jovem mestre do cinema francês.

Cineweb-12/7/2002

Neusa Barbosa


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