Eterno Amor

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Sinopse

Durante a I Guerra Mundial, cinco soldados são condenados à morte por se auto-mutilarem. Porém, Mathilde, a noiva de um deles, acredita que seu amado está vivo e começa a investigar o seu paradeiro.


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Crítica Cineweb

24/02/2005

O escritor francês Jean-Baptiste Rossi (1931-2003), que assinava como Sébastien Japrisot, escreveu em seu livro Un Long Dimanche de Fiançailles que a guerra ‘é a obscenidade mais selvagem, suja e inútil que já houve’. Para provar isso, ele criou uma história de amor, parte drama de guerra, parte um suspense, que foi traduzida para o cinema com competência e rigor visual por Jean-Pierre Jeunet, de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Já faz mais de três anos que Jeunet reiventou a fantasia do dia-a-dia no cinema com a sua fábula moderna. Novamente, ele usa todo seu aparato tecnológico para contar uma história devastadora – em alguns momentos, encantadora - mas que está no pólo oposto do mundo alegre e singelo de Amélie. Eterno Amor abre com uma imagem que, no mínimo, incomoda: uma estátua de Cristo crucificado quebrada em pedaços, preso à cruz por uma de suas mãos num campo de batalha, na I Guerra Mundial.

Uma voz feminina em off explica o que aconteceu nesse fatídico dia em 1917. Cinco soldados foram sentenciados à morte, por terem sido acusados de se automutilarem para conseguir uma dispensa permanente e voltar para casa. Como uma edição ágil e um apelo visual inegável, Jeunet conta rapidamente quem são cada um desses soldados. Entre eles está o jovem Manech (Gaspard Ulliel), o grande amor de Mathilde (Audrey “Amélie” Tautou), uma órfã vítima de pólio que vive numa fazenda com os tios.

Os cinco condenados são mandados para um lugar chamado Bingo Crepuscule, onde serão executados. Nessa terra de ninguém, entre as trincheiras francesas e alemãs, os soldados são mortos – ou é isso que dizem os documentos. Mathilde crê que Manech não morreu. E Eterno Amor segue então a cruzada dessa jovem em busca da confirmação ou não da morte do seu amado.

Segurando o suspense até a última cena, o roteiro escrito pelo diretor e Guillaume Laurant (os mesmos parceiros de Amélie) cria uma série de situações que cada vez colocam Mathilde mais próxima da verdade. Ao mesmo tempo, o longa se torna um colorido painel de tipos comuns e excêntricos que vão cruzando o caminho de Mathilde. Como é o caso da feirante vivida por Jodie Foster.

Tecnicamente impecável, a reconstituição de época e as impressionantes cenas de trincheira ganham um colorido ocre através das lentes de Bruno Delbonnel (também de Amélie), que se inspirou nas cores da trilogia O Poderoso Chefão e nas pinturas do brasileiro Juarez Machado para a sua paleta.

Mais do que o resultado final (se Mathilde vai encontrar Manech ou não), o que conta em Eterno Amor é a jornada evolutiva da investigação e, conseqüentemente, de Mathilde. Dessa forma, o diretor mostra o quanto uma guerra acaba com a vida das pessoas (não apenas daqueles que estão no front). Jeunet já declarou à imprensa internacional sentir ter uma espécie de ligação com a I Guerra, por isso sempre quis adaptar esse livro. Ele esbarrou no fato de a Warner Bros ser a detentora dos direitos, mas o sucesso de Amélie foi um dos fatores que contaram a seu favor para convencer o estúdio norte-americano.

Essa parceria, no entanto, foi alvo de massacre da mídia e da opinião pública na França, fazendo com que Eterno Amor fosse preterido para representar o país no Oscar. O estúdio norte-americano ajudou a produzir o filme, que custou 56 milhões de euros (cerca de US$ 57 milhões). Apesar de algumas concessões tipicamente hollywoodianas, Jeunet manteve-se muito fiel ao espírito francês do filme. A globalização poderia ter sido muito pior: a Warner chegou a cogitar um filme todo falado em inglês.

No César, recebeu 12 indicações, entre elas nas categorias principais (filme, diretor, atriz, fotografia, roteiro adaptado). Já no Oscar foi indicado nas mesmas categorias de Amélie (fotografia e direção de arte), exceto filme estrangeiro, para a qual não era elegível.

Eterno Amor vai crescendo à medida em que é trabalhado como um filme de contrastes: a vida calma do campo em contraposição à agitação da metrópole, os tempos de paz contrastando com a guerra. Nesse ponto, Jeunet faz de seu longa um poderoso artifício antibélico, que chega perto da eficiência de Glória Feita de Sangue (1957), de Stanley Kubrick.

Alysson Oliveira


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