O Aviador

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Crítica Cineweb

15/02/2005

O poderoso filme de Martin Scorsese recria uma época - do final dos anos 20 ao final dos 40 - reconstituindo a figura de um homem (Howard Hughes) e assim coloca o público no centro de sua obsessão - ou seria melhor dizer paixão? Qual é mesmo a fronteira entre uma e outra? Scorsese claramente simpatiza com o tema e identifica-se pessoal e profissionalmente com ele, como se deduz de seu engajamento na gigantesca e não de todo satisfatória empreitada de Gangues de Nova York. Aqui, com o perdão do trocadilho, o diretor voa mais longe, amparado num orçamento sólido e na adesão, mais uma vez, de Leonardo DiCaprio, o ator que quer ser grande. Aos 30 anos, DiCaprio demonstra mais uma vez o desejo de contrariar as expectativas criadas por sua carinha de bebê, que poderia ser uma limitação mas até funciona a favor do personagem. Afinal, é aos 21 anos que o protagonista começa a torrar alguns dos milhões de petrodólares texanos que herdara dos pais para realizar a fantasia de um filme com tomadas aéreas jamais vistas - e isto em 1927, quando os aviões disponíveis mal passavam de uma versão melhorada do pioneiro 14-Bis, de Santos Dumont.

O filme Anjos do Inferno, primeiro trabalho de Hughes como diretor, teve uma das filmagens mais longas de Hollywood: nada menos de três anos foram consumidos ali, ainda mais tendo em vista que se refez boa parte do filme depois do advento do som no cinema, em 1929.

O perfeccionismo e a tenacidade do jovem milionário na confecção deste seu filme inaugural dão bem a medida do adulto que está se formando ali: nada menos do que um rei capitalista, candidato a dono do mundo e disposto a nunca aceitar um não como resposta, de quem quer que seja. Das mulheres mais belas do mundo, também. Do harém cintilante de Hughes fizeram parte estrelas como Jean Harlow (Gwen Stefani), Ava Gardner (Kate Beckinsale) e até mesmo a altiva Katharine Hepburn (soberbamente interpretada por Cate Blanchett).

Embora recrie com toda a excelência e glamour os anos 30 e 40, no esplendor dos cenários, figurinos e todo tipo de objeto e adereço imaginável - como seria de se esperar numa superprodução -, o grande acerto do filme está em não depositar demasiada confiança neste esmero visual (de resto, marca registrada de Scorsese e seus colaboradores, como a montadora Thelma Schoonmaker). A ênfase está sempre no drama e ele é maiúsculo. Hughes é apresentado como uma personalidade sempre ambivalente, tão charmoso quanto irascível, tão determinado quanto instável, tão visionário quanto alucinado. Aonde é mais possível vislumbrar esta ambigüidade (transmitida com uma tranqüila segurança por DiCaprio) é na disputa feroz do magnata no campo da aviação, onde ele parece ter brilhado mais do que em todos os outros.

Piloto audaz, Hughes comandava uma equipe de projetistas, interferindo pessoalmente em seus planos e testando ele mesmo os protótipos. Saíram da prancha de sua equipe, com toques de sua poderosa inspiração, aviões como o H-1 Racer (que bateu os recordes de velocidade de sua época) bem como o malfadado XF-11 (objeto de uma sensacional seqüência de desastre, com sua espetacular queda sobre as mansões de Beverly Hills) e o porta-aviões Hércules (ainda hoje usado pelas forças armadas americanas). Outra façanha pessoal foi a realização de uma volta ao mundo em 1936 e uma titânica queda de braço com a Pan Am, na época, privilegiada como a única companhia americana a realizar vôos internacionais, alijando a TWA, de Hughes.

Mais ainda do que a seqüência do desastre com o XF-11, o comparecimento de Hughes a uma comissão do Senado, comandada por um aliado da Pan Am (Alan Alda), é uma demonstração cabal de seu destemor, que tantas vezes beirava um mergulho na autodestruição. Numa época em que andava já imensamente perturbado por suas fobias, Hughes reuniu forças para desancar seus inimigos diante da comissão do Senado, com uma bravura de que muitos já não o julgavam capaz.

O retrato de seu isolamento, por conta do distúrbio maníaco-compulsivo (que se agravou bastante na maturidade do personagem, não-abordada no filme) é construído pelo cineasta com uma veracidade que nunca perde de vista o respeito pela dor humana ali contida. Scorsese elaborou um espetáculo cheio de sangue, suor e fúria. Mas não se esqueceu da grandeza. Cinco Oscar e várias premiações já obtidas - Globo de Ouro e Sindicato dos Produtores da América - pavimentam a brilhante trajetória de um filme e de um diretor no auge de sua forma.

Neusa Barbosa


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