Alphaville

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


País


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

31/01/2003

"Pode ser que a realidade seja complexa demais para transmissão oral". Godard se entrega inteiramente às palavras mas, logo de antemão, previne o espectador para as infindáveis referências que, não raro, passam desapercebidas e encorajam um segundo olhar sobre Alphaville. Como tudo que sai das mãos do diretor franco-suíço, o filme não é simples e o excesso de informação, em muitos momentos, nos impede de capturar os pequenos detalhes que Godard faz questão de salpicar na trama.

O agente secreto Lemmy Caution é enviado a Alphaville, uma versão futurista e nebulosa da Paris de 1965, com a missão de encontrar o colega de profissão Henry Dickson e investigar os misteriosos desaparecimentos de outros agentes. A resposta para suas perguntas está em Alpha 60, computador autônomo e fascistóide criado pelo professor Leonard von Braun e que controla todas as atividades e mantém a população do local inteiramente sob seu comando.

Na entrada de Alphaville, uma placa alerta para os lemas da cidade: "Ciência, Lógica, Segurança e Prudência". Nessa tecnocracia fascista as pessoas agem como zumbis, identificadas apenas por números, e seguem, como valores máximos, coerência de raciocínio e eficiência. Não há arte e tampouco amor e escritores morrem por falar coisas sem sentido. A bíblia de Alphaville é um dicionário, renovado quase que diariamente, no qual não constam palavras como "por que" e "consciência".

Por trás dos preceitos de justiça e bem universal, Alpha 60 desenvolve os princípios do nazismo, apontados por Godard através de incursões como o símbolo "SS" ou por meio de escolhas tanto do nome do criador do computador como de uma das locações, o Parisian Hotel Continental, onde os nazistas se alojaram durante a ocupação da França. No ritual de execução, os condenados à morte por agirem de maneira ilógica, 50 homens para apenas uma mulher, caminham por uma prancha, proferindo suas últimas palavras de contestação ao status quo, até que tiros os derrubam na piscina, sob os aplausos eufóricos de figuras importantes da sociedade. O cadáver é, então, recolhido por nadadoras que realizam coreografias.

O ideal da raça pura é transformado, aqui, no conceito de pessoas de cérebros limpos que são enviadas para os chamados "países exteriores" para perturbar desde relacionamentos amorosos à questões de segurança mundial. Para Alpha 60, homens comuns não merecem o espaço que ocupam no mundo e para aqueles que se encontram em Alphaville as opções são o suicídio ou a recuperação em um "hospital", graças a uma eficiente propaganda.

Os gângsteres dos anos 30, com seus socos visivelmente encenados e revólveres de incontáveis balas, dão o tom ao protagonista, o agente 003, que atira no isqueiro apenas para acendê-lo. Godard abusa da câmera por trás de portas de vidros, artifício que acarreta planos longos e de bastante profundidade de campo. Ousadias certeiras que renderam merecidamente ao filme o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Sobre Alphaville, "tudo foi dito, a menos que as palavras mudem de sentido e o sentido, de palavras", diria Alpha 60.

Cineweb-10/5/2002

Luara Oliveira


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança