Os Incompreendidos

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Crítica Cineweb

08/01/2003

Não há como não considerar definitivo este filme, na carreira e na vida do cineasta François Truffaut. Com ele, o jovem diretor de 26 anos ganhou o prêmio de direção no Festival de Cannes/59 logo em seu trabalho de estréia, exorcizou os demônios de sua adolescência de maneira exemplar - a ponto de o lançamento ter causado um rompimento de três anos com os pais - e construiu um marco inicial da Nouvelle Vague, o movimento que mudaria a face do cinema francês e de outras partes do mundo nas décadas seguintes.

Quem tiver a tentação de atribuir tudo isso a sorte de principiante, precisa urgentemente ver o filme, que em boa hora é relançado em cópia nova, colocando-o ao alcance de algumas gerações que não puderam conhecê-lo antes - já que não existe em vídeo, como boa parte da obra do diretor francês, falecido precocemente em 1984. Para quem já assistiu, é uma oportunidade rara de conferir se suas qualidades resistiram ao tempo.

Livros podem ser escritos sobre uma obra assim, tão rica de significados e reinterpretações. Mas alguns aspectos chamam mais a atenção do que outros e um deles é o caráter autobiográfico do roteiro. Custa a crer que os pais de Truffaut, um filho de mãe solteira que devia o próprio sobrenome ao pai adotivo, tenham tido a indiferença e a crueldade retratados na história de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), um garoto rebelde de 12 anos e meio que é finalmente entregue à polícia pelo próprio pai, depois do roubo de uma máquina de escrever. Mas isso foi fato e não ficção, como relata a rigorosa biografia de Truffaut, assinada por Antoine de Baecque e Serge Toubiana. Não admira que os pais do cineasta, ressentidos de se verem assim expostos, deixassem de falar com o filho por tanto tempo.

Truffaut alimentou o roteiro de detalhes de sua própria vida, mas teve a arte de enriquecê-lo com ficção de primeira linha, contando com a parceria do romancista Marcel Moussy. A mistura vigora especialmente ao delinear o personagem principal. Se é verdade que Antoine foi agudamente calcado no próprio Truffaut, não é menos verdadeiro que seu retrato devia muito ao amigo de infância, Robert Lachenay - um parceiro que compartilhou muitas das aventuras retratadas no filme, onde Robert também é representado pelo personagem do melhor amigo de Antoine, René Bigey (Patrick Auffray).

Não é menos verdade que Antoine Doinel acabou impregnado pela própria figura do jovem ator Jean-Pierre Léaud, uma personalidade tão forte apesar dos 14 anos de idade que leva Truffaut a modificar o próprio roteiro. "Considero que Antoine é um personagem imaginário que tem a ver um pouco com cada um de nós dois", confessou o diretor em entrevista inédita, citada na biografia de Toubiana e De Baecque. O filme assinala, aliás, o início de uma parceria e cumplicidade duradouras - tanto que Léaud se tornaria o protagonista de quatro outros trabalhos (o episódio Amor aos 20 Anos e os longas Beijos Proibidos, Domicílio Conjugal e O Amor em Fuga) que registraram o amadurecimento do ator e do personagem Antoine Doinel, um dos mais raros e ricos casamentos entre realidade e ficção retratados pelo cinema.

O rosto de Léaud certamente é o melhor espelho de todo o turbilhão emocional do adolescente que foi não sóTruffaut, mas milhões de outros no mundo. Mesmo 42 anos depois que o filme foi feito, é possível sentir como esse retrato de tristeza, abandono, rebeldia, agressividade e ternura não envelheceram e pulsam poderosamente. Quem algum dia foi jovem, em algum momento, ou muitos, entrará na pele de Doinel-Truffaut - e aí nem interessa onde começa um e termina o outro - e verá o mundo com seus olhos.

Em sua época, Os Incompreendidos foi apontado como parâmetro de um novo modo de fazer cinema. Tempos depois, esse estilo foi batizado de Nouvelle Vague (literalmente, "a nova tendência"), um termo inventado um ano e meio antes do filme, pela revista L´Express, só que para um comentário que nada tinha a ver com cinema e sim com literatura. Olhando as características do filme - simplicidade, filmagem rápida, história atual, elenco jovem e desconhecido, predominância de tomadas externas, opção pela luz natural e minimalismo de recursos técnicos e econômicos, logo se vê de onde os cineastas dinamarqueses liderados por Lars von Trier tiraram inspiração para escrever os princípios do seu Dogma 95. Já fazer um filme da sensibilidade e permanência deste, é outra coisa.

Neusa Barbosa


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