Whisky

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Crítica Cineweb

19/11/2004

Produzindo apenas três ou quatro longas-metragens ao ano, o cinema uruguaio já merece, porém, a descrição: "chiquitito, pero cumplidor". O Festival de Gramado, especialmente, tem sido a porta de entrada de algumas das produções desse país, caso do premiado Coração de Fogo (que não chegou às telas paulistanas, apenas às do Rio Grande do Sul, por motivos que só sua distribuidora conhece). Felizmente, tem melhor destino este Whisky, que arrebatou platéia e crítica em Gramado/2004, levando os troféus de melhor filme para o júri e o público, além do de melhor atriz para Mirella Pascual.

Ironicamente, Marta (a personagem de Mirella) não tinha tanto espaço na primeira versão do roteiro - que foi traduzido em inglês e venceu um prêmio em Sundance, cuja verba serviu para custear metade do orçamento. Tiveram olho clínico os diretores-roteiristas Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, ampliando a participação de Marta no enredo, funcionando como o fiel da balança entre dois irmãos, Herman (Jorge Bolani) e Jacobo (Andrés Pazos).

Jacobo, o mais velho, é um homem taciturno e solitário, apegado obsessivamente a uma rotina imutável, administrando uma pequena fábrica de meias. Marta é sua gerente e, aos seus olhos, quase uma peça da decoração. Há poucas palavras, gestos, olhares. Nesse ritual silencioso, conta-se tudo sobre a aridez emocional destas pessoas, afundadas num tédio mortal.

Rompe a rotina a chegada do irmão mais novo de Jacobo, Herman, que mora há anos no Brasil, onde tem uma outra fábrica de meias. A diferença é que Herman também tem uma família, mulher e filhos. Dando início à que será uma competição muda porém feroz entre os dois irmãos, Herman decide montar uma farsa: pede a Marta que se passe por sua esposa. Só um cego - como Jacobo- não perceberia o alcance do interesse real de Marta por ele. Por isso, não é difícil para ela aceitar alegremente a função de falsa mulher, mudando-se para o apartamento de Jacobo, ao qual consegue dar vida nova com uma providencial redecoração.

Tudo neste relacionamento entre os dois irmãos é rivalidade e ressentimento - a começar pelo fato de que foi Jacobo quem cuidou sozinho da mãe, até a morte desta. Herman não dá sinais de arrependimento e encena também um papel de feliz e bem-sucedido - que ninguém sabe se corresponde à verdade, já que sua mulher e filhos ficaram no Brasil. O duelo não-declarado ganha um inesperado fôlego com a participação de Marta, que demonstra ser bem mais do que a mulher amorfa das primeiras cenas.

Jogando nessa chave de um humor ferino e sutil, acumulando detalhes para criar os climas, numa chave que revisita ao cinema mudo, em especial Buster Keaton, a dupla de cineastas compõem um filme de uma solidez extraordinária. E que consegue tornar-se um paradigma de um país estagnado, que foi ficando obsoleto ao longo dos anos, observando inerte a partida de seus jovens rumo à Espanha (presente mesmo numa cena do filme). Vale a pena não perder.

Neusa Barbosa


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