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Crítica Cineweb

08/11/2004

Almodóvar pisa no terreno do filme "noir" e rende homenagem declarada à escritora americana Patricia Highsmith - de quem diz ter recolhido a inspiração para o personagem de Juan (Gael García Bernal). O diretor afirmou ter escolhido o Alain Delon que foi protagonista de "O Sol por Testemunha" para compor este personagem que, como uma "femme fatale", semeia catástrofes ao seu redor sem que se saibam exatamente suas motivações antes do final.

A comparação com a "femme fatale", de resto usada pelo próprio Almodóvar, torna-se tanto mais adequada na medida em que Juan aparece em boa parte do filme travestido como mulher, na pele de Zahara - esta por sua vez calcada diretamente em Sarita Montiel, de quem se vê uma cena no melodrama "Esa Mujer".

O cineasta espanhol mergulhou fundo no poço de suas obsessões. Para aqueles que sentiam falta dos ambientes multicoloridos e dos travestis e marginais das produções do começo de sua carreira, Má Educação servirá a contento. Aqui, o diretor farta-se de sua própria velha cenografia física e dramática para contar a história de dois jovens, Enrique (Féle Martinez) e Ignacio (Francisco Boira), que compartilharam de uma dramática experiência infantil num colégio jesuíta onde a pedofilia de um dos padres, Manolo (Daniel Gimenez-Cacho), era um segredo mal-escondido. Separados um do outro por 16 anos, os dois se reencontram num momento em que Enrique tornou-se diretor de cinema e Ignacio, autor de uma história, intitulada "A Visita", que tem grande potencial para tornar-se um filme.

A história de Ignacio nutre-se profundamente do universo de sexualidade clandestina oculto no colégio católico, convertendo-se, assim, numa oportunidade para que os dois jovens exerçam um longamente adiado ajuste de contas contra o padre Manolo. Comandado por personagens governados pelo desejo do risco e imbuído de tantos componentes de melodrama - culpa, medo, raiva, paixões frustradas ou proibidas -, este "noir" almodovariano afasta-se decididamente da vertente de suspense de um Alfred Hitchcock - de quem se invoca a benção, porém, na música de Alberto Iglesias que inaugura os créditos do filme, colocados na tela como tiras de papel (ou de carne) rasgando-se em fundos que oscilam entre as cores branco, preto, cinza e vermelho.

A partir deste início, que prepara o espectador para o drama de tintas policiais que se apresenta a seguir, Almodóvar acelera o carrossel de referências cinematográficas e musicais numa velocidade que parece alucinante. Didaticamente, porém, coloca avisos no caminho, através das falas dos personagens, objetos de cena ou de trechos de música sugerindo ou esclarecendo o que se passa no interior mais profundo da narrativa. Talvez seja este recurso que distancia o espectador das altas emoções estimuladas mais livremente em Fale com Ela ou Tudo sobre Minha Mãe. Aqui, até por se tratar assumidamente de um filme de gênero, com convenções a seguir, a qualidade desta emoção é de outro quilate.

Outro fator que proporciona distanciamento é que os personagens aqui não permitem a mesma empatia de filmes anteriores do diretor - também uma limitação do "noir", que navega declaramente no submundo. O próprio Almodóvar explicou-o melhor na conferência de imprensa que concedeu no Festival de Cannes, em maio de 2004, onde o filme foi a atração de abertura: "O cinema consegue converter em espetáculo o que há de pior na natureza humana e é isso o que me atrai, o pior". Confessou-se admirador do cinema americano em que "o mal está alojado no interior dos personagens", onde coloca O Destino Bate à Porta, Anjo ou Demônio? e Amar Foi Minha Ruína. Também citou nominalmente o cineasta americano Nicholas Ray, em que "o pior está na relação entre as pessoas".

Falando nos aspectos pessoais da história, o diretor garantiu: "Não há episódios pessoais de minha vida aqui". Esclareceu que o aspecto mais pessoal desta produção é o modo como é narrada, embora tenha destacado que visitou e viveu por muitos anos em dois cenários que aparecem no filme: o colégio católico dos anos 1960 e a Madri exultante e livre dos anos 1980 (a ação do filme se passe um pouco antes, em 1977).

Abordando a pedofilia dentro da Igreja Católica, Almodóvar não crê que tenha feito um filme anticlerical. Mas ironizou: "Isso não faz falta. A Igreja degrada-se a si mesma cada vez que faz declarações à imprensa. Ao menos na Espanha, o pior inimigo da Igreja é ela mesma", declarou no festival francês.

Continuando o comentário, disparou: "Eu utilizo a Igreja como algo decorativo, certas figuras de santos, Virgens, Jesus Cristo. Como diz o Papa João Paulo II, o modo como a Espanha vive a religião é idólatra. Não há nada mais pagão do que a Semana Santa em Sevilha. Mas gosto desse modo profano. É o melhor modo de viver a religião". A razão do título do filme, segundo o diretor, baseou-se na educação que ele e outros espanhóis, mesmo de gerações anteriores, receberam, fundada no medo, no castigo, no sentimento de culpa. Para Almodóvar, "a educação perfeita para psicopatas. É um milagre que eu tenha crescido normal!".

Quanto ao abuso sexual de crianças, o diretor destacou que não fez um filme-denúncia nem nunca o pretendeu. "Falo disso como de outras coisas e sigo adiante. Parece-me tão óbvio dizer que é um crime horrível que tem de ser denunciado que não quis fazer disso o centro de meu filme".

Neusa Barbosa


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