Beijos Proibidos

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Crítica Cineweb

08/01/2003

Ao estrear no cinema com o longa Os Incompreendidos (59), François Truffaut acertou as contas com o passado e a gravidade de sua infância. Em Beijos Proibidos (68), o diretor reencontra seu protagonista e alter ego, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), mais crescido e iluminado por uma aura de leveza, aprimorando em sua carreira as vertentes da comédia e da ironia romântica que foram algumas de suas marcas registradas, aqui com a colaboração de roteiristas como Claude de Givray e Bernard Revon.

Para fazer um estudo sobre o personagem de Doinel, não poderia haver melhor oportunidade, aliás, do que esta semana, quando se encontram em cartaz em São Paulo tanto Os Incompreendidos quanto Beijos Proibidos - este último acompanhado do curta Antoine e Colette (62), episódio desligado de Amor aos 20 Anos, um longa que uniu originalmente os trabalhos dos diretores Marcel Ophuls, Renzo Rossellini, Andrzej Wajda e Kon Ishihara. Assim, estão nas telas paulistanas os três primeiros momentos de Doinel, que ainda teria duas outras encarnações patrocinadas por Truffaut nos anos seguintes.

Em Antoine e Colette, o rapaz, já fora da casa dos pais, trabalha na fábrica de discos Philips e mora num quartinho. À noite, sai com o amigo René (Patrick Auffray, o mesmo de Os Incompreendidos), com quem troca confidências sobre seus sonhos amorosos. Estes ganham substância na tentadora Colette (Marie-France Pisier), mocinha que freqüenta o circuito dos concertos noturnos estudantis. A afinidade musical dá esperanças a Antoine, que termina por mudar-se para o hotel em frente ao apartamento de Colette. Mas suas expectativas são frustradas pelas diferentes intenções da moça. No final das contas, os pais dela gostam mais de Antoine do que ela.

A mesma ironia se repete em Beijos Proibidos, que parte de onde acabou Antoine e Colette. A frustração amorosa levou Antoine a alistar-se no Exército, onde foi o soldado mais relapso de que seus superiores tiveram notícia, acabando na prisão. Desligado a bem do serviço, ele volta à vida civil e à casa de uma moça de seu passado, agora rebatizada como Christine (Claude Jade). Esta também é esquiva ao interesse de Antoine e está fora, em viagem com amigos. Antoine inicia, então, uma peregrinação pelos mais variados empregos - porteiro noturno de hotel, detetive, técnico de televisão - que o colocam no centro de aventuras amorosas, como com uma estonteante mulher casada, Fabienne Tabard (Delphine Seyrig).

Como sempre, Truffaut misturava sua vida pessoal às histórias que contava. Mais do que isso, unia amor e trabalho quase sem fronteiras. Ao filmar Antoine e Colette, aprofundou uma crise matrimonial já iniciada por seu caso com Jeanne Moreau em Jules e Jim, ao envolver-se com a protagonista do curta, Maria-France Pisier, que na época tinha 17 anos e meio. Apesar disso, o casamento com Madeleine Morgenstern ainda sobreviveu alguns anos.

Feito seis anos depois, Beijos Proibidos constituiu um grande sucesso comercial do diretor, o que foi até uma surpresa. Afinal, naquela Paris de 1968 o ar que se respirava era todo político, ainda no rescaldo da histórica rebelião estudantil que semeou barricadas e esperanças de revolução em todas as esquinas da cidade. Entretanto, talvez porque a revolução tivesse fracassado, o público encantou-se pelas aventuras de Antoine, que não são todas tão doces nem pueris como se supõe à primeira vista, apesar de embaladas pela canção-tema do popularíssimo Charles Trénet, Que Reste-t-il de nos Amours?

Pode-se enxergar no jovem Antoine um proletário que tenta mas nunca consegue a ascensão social que deseja. Além disso, a presença de personagens no limite emocional, como a mulher casada (Delphine Seyrig) que propõe a Antoine uma aventura única, e o homem desconhecido (Serge Rousseau) que se declara a Colette em busca do amor definitivo, pontuam esta paisagem de educação sentimental de espinhos existenciais um tanto complexos e adultos. Truffaut, ele mesmo dizia, era um romântico que desconfiava do romantismo.

Neusa Barbosa


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