Homem-Aranha 2

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Crítica Cineweb

28/06/2004

Neste segundo capítulo, o momento é de definições e responsabilidade. O herói Peter Parker/Homem-Aranha (novamente interpretado por Tobey Maguire) está mais dividido do que nunca, enrolado no famoso "ser ou não ser" que já tirava o sono de Hamlet em Shakespeare. A vantagem, para Peter, é que os demais protagonistas desta história sentem-se igualmente dilacerados pela dúvida. É o caso de sua namorada, Mary Jane (Kirsten Dunst), e até do vilão da hora, o cientista Otto Octavius (Alfred Molina).

Ao optar por uma história com esse tom quase existencialista, que gira em torno de escolhas, maturidade e definição de identidade, o diretor Sam Raimi corre grande risco, o que é positivo por revelar a ambição de assumir alguns desafios. Uma direção preguiçosa preferiria manter tudo dentro dos limites da adrenalina e dos efeitos visuais. Que fiquem sossegados os caçadores de emoções, porque estes efeitos não faltam. Estão maiores e ainda melhores do que no primeiro filme. O Homem-Aranha voa como nunca, projetando suas teias no alto dos edifícios de Nova York e protagoniza lutas ferozes com o dr. Octavius que, depois de um acidente com sua experiência com energia, adquiriu perigosas hastes metálicas como membros adicionais.

A dúvida maior de Peter é, justamente, em torno do amor de Mary Jane. Ele já tinha renunciado à moça, por acreditar que compartilhar com ela o segredo de sua dupla identidade colocaria sua vida num perigo que ele não pretende correr - ainda mais depois do trauma que ele carrega, por acreditar ter involuntariamente provocado a morte do tio. Peter não quer arriscar a vida de mais nenhum ente querido. Aí entra em cena um candidato a noivo para sua amada, um astronauta que é o protótipo do bom partido (Daniel Gillies).

Quando Mary ameaça se casar com o rapaz por conta de sua hesitação, Peter entra em parafuso. O sentimento provoca efeitos colaterais em seu corpo. Às vezes, quando transformado no Homem-Aranha, ele não consegue lançar pelos pulsos as teias que garantem seu vôo: mais de uma vez, cai perigosamente no chão.

Nada melhor para apressar pombinhos hesitantes do que o vilão. Dividido, ele mesmo, entre sua natureza de cientista genial e o controle maligno que exercem sobre ele suas múltiplas garras metálicas, Octavius tende para seu pior lado. E parte para a destruição de Nova York, ameaçando a vida de várias pessoas, como a própria tia de Peter (Rosemary Harris) e seu melhor amigo, o milionário Harry Osborn (James Franco). Tudo isso porque o cientista precisa obter um raro combustível, imprescindível para que ele retome a experiência que deu errado no começo do filme.

Mesmo sendo o que é, diversão pura, o roteiro do veteraníssimo Alvin Sargent (autor das histórias de Lua de Papel, Julia e Gente como a Gente, entre outros) fixa com muita propriedade os contornos de um verdadeiro herói da classe trabalhadora - presente, a bem da verdade, desde a história original de Stan Lee. Este Homem-Aranha que tem de dar duro para sobreviver, dividindo-se entre dois mal-pagos empregos como fotógrafo free-lancer e entregador de pizzas, entre um vôo e outro, é um tipo muito diverso, oposto em tudo aos habituais vencedores do cinema, quase sempre um tanto mauricinhos. O mauricinho-pretendente de Mary Jane é, aliás, vivido pelo filho do dono do jornal que emprega Peter, (J.K.Simmons) -o sensacionalista primário e aproveitador capitalista patético de sempre. Não que ninguém acredite que Sam Raimi quis fazer uma crítica social a sério. Mas é um bom toque, entre outros.

Não é pouco projetar a vitória de um herói humano e que conta apenas com o próprio talento - por mais excepcional que ele seja, também sujeito a falhas - e capaz de escolhas e sacrifícios nada fáceis. É um raro filme pensado para um público adolescente que insere uma idéia de crescer positiva. A maioria prefere cortejar os instintos básicos da platéia.

Sinal dos tempos, este herói sofrerá de um agudo sentido de abstinência sexual. Mal do último século que se projeta neste, ainda assombrado pelo fantasma da AIDS e por um insistente neobelicismo, especialmente nos EUA.

Neusa Barbosa


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