A Cidade Está Tranqüila

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Crítica Cineweb

28/01/2003

O diretor francês Robert Guédiguian faz um cinema visceral, acreditando que a saída para uma vida melhor está na humanização e não na aposta das desigualdades causadas pela globalização. Com um olhar crítico, lapidado na vivência sindical e como ex-militante do Partido Comunista Francês, Guédiguian transforma Marselha num painel da atual sociedade mundial, com todas suas idiossincrasias.

A abertura é uma visão panorâmica de Marselha e a câmera vai fechando até chegar num belo parque onde um menino dá um concerto de piano ao ar livre. Pedaços da vida da cidade vão aparecendo aos poucos antes da apresentação de Michèle (Ariane Ascaride), uma humilde empacotadora de peixes do frigorífico local. Ariane, numa interpretação soberba premiada com o César de melhor atriz francesa em 2001, é uma mulher corajosa que mantém a casa onde convive com o marido alcoólatra e desempregado, sustenta a filha viciada em drogas e cuida da neta recém-nascida.

A vida de Michèle irá cruzar com várias outras personagens da cidade durante sua busca por um pouco de felicidade. Desesperada ao saber que a filha se prostitui para comprar drogas, ela resolve tomar para si esta tarefa. Em sua primeira tentativa de vender seu corpo, Michèle encontra Paul (Jean-Pierre Darroussin), um ex-portuário desiludido com a profissão que torna-se motorista de táxi na esperança de uma vida mais abastada. Cria-se entre ambos um elo que tangencia o emocional.

Para proteger ainda mais a filha, a mulher recorre a um antigo namorado de adolescência, Gérard (Gérard Meylan), dono de um bar na periferia e matador de aluguel, para comprar a dose semanal de droga necessária à sobrevivência de Fiona (Julie-Marie Parmentier). Enquanto o drama da vida destas pessoas quase miseráveis se desenrola, a câmera capta flashes da elite, que não por acaso está sempre em festas em luxuosas coberturas, bem distantes da realidade crua das ruas de Marselha.

Políticos e grandes empresários discutem seus negócios sem se importar com a eclosão de conflitos sociais e, principalmente, raciais em aglomerados populares. É um soco no estômago a luta pela integração social de Abderamane (Alexandre Ogou), jovem de origem africana e egresso da prisão. Através de aulas de dança e música, ele consegue encontrar um espaço naquela sociedade. Mas seu caminho cruzará com o do marido de Michèle que, desencantado, ingressa num partido de extrema-direita, e o desenlace mostra toda a falência do aclamado tolerante sistema político francês.

O filme A Cidade Está Tranqüila mostra exatamente o inverso da paz sugerida pelo título. Todo o turbilhão de uma sociedade competitiva e injusta aparece na tela de maneira a subverter a aparente normalidade. Nada está em seu lugar. Mas que não se espere um filme hermético, muito pelo contrário, cada imagem ou diálogo, de alguma maneira, faz parte da vida do espectador. A narrativa densa não atrapalha, em absoluto, o ritmo do filme. Nele, tudo está em seu lugar.

Cineweb - 8/2/2002

Ana Vidotti


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