Cazuza - O Tempo Não Pára

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Crítica Cineweb

04/06/2004

Não é fácil identificar onde acaba o mito e começa o ser humano. No filme Cazuza - O Tempo Não Pára, o cantor e poeta carioca sofre dessa dicotomia. Não o verdadeiro Cazuza, morto em 1990, mas o "personagem" e as pessoas que o cercam. O longa perde uma grande chance de ser o retrato de um artista, ou mesmo de uma geração, e acaba se tornando um verdadeiro álbum de recortes - ou um videoclipe, neste caso - dos melhores momentos da vida do ídolo feitos por um fã -ou por uma mãe bem tiete.

É curioso que a co-direção seja assinada por Sandra Werneck, que é mais conhecida como documentarista, apesar de ter dirigido duas comédias românticas de sucesso (Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis). Talvez por sua experiência com o documentário, Sandra e seu co-diretor Walter Carvalho (também diretor de fotografia) não acertam o tom que querem dar ao filme. O longa acaba transitando entre um drama -principalmente quando aborda a relação entre mãe e filho - e algo semidocumental da carreira de um ídolo popular.

Não haveria problemas nessa abordagem, fosse ela feita com naturalidade, dosando de forma equilibrada as cenas documentais do próprio Cazuza com a recriação ficcional feita pelo ator Daniel de Oliveira. No entanto, os cineastas tentam fazer as duas coisas ao mesmo tempo e o resultado não é bom. O personagem mais parece falar em códigos, como se fizesse poesia vinte e quatro horas por dia. Essa visão ídolo-nato ofusca o ser humano, que é pouco explorado no filme.

A relação de Cazuza com a mãe (interpretada por Marieta Severo) desaparece durante a maior parte do tempo, deixando um notório vazio na narrativa. No início é impossível não se questionar se esse é um filme sobre Cazuza, sobre a mãe do artista ou sobre a maternidade em si. Cazuza - O Tempo Não Pára tem um pouco de cada coisa. Mas isso não é nenhuma surpresa, dada a origem literária do longa. O roteiro é baseado na biografia Só as Mães São Felizes, escrita por Lucinha Araújo. Conforme ela mesma disse, durante a coletiva de lançamento do filme em São Paulo, o livro foi uma dolorida catarse.

Se escrever o livro foi penoso para Lucinha, fazer o filme foi menos traumático. Como ela própria contou, esteve presente em praticamente todos os dias de filmagem - até o momento em que Cazuza aparece doente, quando não teve mais coragem de ir ao set. E a sua marca é quase inconfundível no resultado final. Conforme o próprio filme pinta, Lucinha sempre foi uma mãe controladora - mais involuntariamente do que propositalmente. De qualquer forma, fica claro que o que se observa na tela é um retrato daquilo que ela via no filho.

Há cenas que podem ser chamadas de mais fortes, como Cazuza se drogando e até beijando outros rapazes - ele nunca escondeu sua bissexualidade -, mas esse comportamento nunca é discutido em casa com os pais. E não se pode dizer que tais fatos e discussões não exerceram uma influência na obra e vida do artista. Durante a coletiva, a cineasta disse ter optado por deixar alguns fatos fora do filme. Em outros casos, personagens foram condensados. Por exemplo, Bebel, vivida por Leandra Leal, representa diversas amigas que Cazuza teve em sua vida.

Dando crédito a quem merece, Daniel de Oliveira está impressionante no papel do artista. Não só é parecido fisicamente com o verdadeiro, mas também se entrega ao personagem com muita força. Mais do que interpretar Cazuza, ele respira Cazuza. Ele canta, faz shows, é charmoso e encanta como o verdadeiro artista. O ator canta com sua voz em vários momentos do longa. Segundo o produtor musical do filme e amigo pessoal do cantor, Guto Graça Mello, só Lucinha é capaz de distinguir a voz de seu filho e a do ator.

No entanto, novamente o filme cai na dicotomia ídolo-e-ser-humano. Enquanto Daniel se transforma no poeta, o ator parece também ter se impressionado com o mito, esquecendo que por trás deste havia uma pessoa.

Cazuza - O Tempo não Pára não é ruim. Longe disso. Mas ainda falta muito para ser um grande filme, do tamanho "daquele garoto que queria mudar o mundo". Na verdade, o longa "assiste a tudo em cima do muro".

Alysson Oliveira


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