Filme de Amor

Ficha técnica


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Crítica Cineweb

25/05/2004

O carioca Julio Bressane impôs o seu rigor experimentalista em Filme de Amor, exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2003 com boas críticas da imprensa francesa. Em 1969 ele já havia exibido na mesma seção seu segundo filme, Matou a Família e Foi ao Cinema.

Com seu novo trabalho, Bressane mostrou que continua fiel a si mesmo, a um estilo que combina um experimentalismo fluido na linguagem para poder comportar as inúmeras citações literárias e pictóricas que tanto lhe agradam, bem como a alternância de texturas (há mesmo imagens com luz estourada e fora de foco), cor e preto-e-branco - uma riqueza visual aqui comandada pelo consagrado diretor de fotografia Walter Carvalho (de Abril Despedaçado, Lavoura Arcaica e tantos outros).

Bressane trabalha aqui pela terceira vez com o ator Fernando Eiras (escalado antes em O Mandarim e Dias de Nietzsche em Turim). Ele é um dos três protagonistas, ao lado de duas atrizes de teatro que estréiam no cinema, Bel Garcia e Josie Antello. O trio encarna uma livre reinterpretação do mito das Três Graças, onde Bressane toma a liberdade de transformar uma delas num homem (Eiras), já que originalmente eram todas mulheres (Tália, Abigail e Eufrosina, representando o amor, a beleza e o prazer). São três pessoas comuns, que decidem passar algum tempo (indeterminado) dentro de um apartamento, embriagando-se, entorpecendo-se e buscando sensações novas, inclusive sexuais.

A história se fecha numa bela seqüência, que incorpora as ruas do Rio de Janeiro (que já haviam aparecido antes), e devolve os personagens à sua vida cotidiana, em seu ambiente de trabalho. O homem é barbeiro, uma das moças é manicure, a outra ascensorista.

Tudo que a primeira parte do filme distancia, por ser um tanto recitativa, essa parte final inclui, no sentido de aproximar a platéia da humanidade dessas pessoas que se viu antes em contexto tão distinto. Não há como deixar de elogiar, também, a riqueza dos textos ditos pelos atores, alguns realmente preciosos e de clara inspiração literária, de diversas fontes. Uma das frases mais sintomáticas e que pode até servir como definição informal da filosofia de Bressane é esta: "O delírio é superior ao bom senso. O bom senso é humano, o delírio é divino". Na trilha sonora, o diretor-roteirista foi mais saudosista, resgatando velhas canções como Tabu, na voz de Ângela Maria, e Hino ao Amor, cantada por Dalva de Oliveira.

Neusa Barbosa


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