O Herói da Família

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Crítica Cineweb

17/05/2004

Publicado em forma de folhetim em 1839, o livro Nicholas Nickleby, do escritor britânico Charles Dickens (1812-1870), figura como uma de suas obras mais importantes, apresentando um vasto painel da sociedade da época. Como em seus outros romances famosos, Oliver Twist, David Copperfielde Grandes Esperanças, os personagens são acima de tudo tipos humanos. E se no universo dickensiano há espaço para os bons e os maus, há também para os muito maus.

Se em O Herói da Família (inspirado título nacional para a versão original), o bom é o próprio Nicholas, fica difícil decidir quem são os maus e os piores ainda. Quem disputa acirradamente estes postos é o tio malvado, que além de querer se livrar do sobrinho, não pensa duas vezes em humilhar a sobrinha diante dos gentlemen da sociedade londrina. Também se destacando como malévolo, talvez um dos personagens mais perigosos de toda a obra do escritor, é o Sr. Wackford Speers, interpretado com uma perfeição assustadora pelo britânico Jim Broadbent. Ele é o dono de um escola interna em que maltrata seus alunos sem a menor piedade, isso com a ajuda de sua sádica mulher.

Com o auxílio do tio, Nicholas consegue um emprego nessa escola em Yorkshire, mas só ao chegar lá percebe a enrascada em que está entrando. No entanto, ele ganha um grande amigo, o tímido e problemático Smike (Jamie Bell, de Billy Elliot). Ex-aluno, ele se tornou uma espécie de escravo dos Speers quando seus pais simplesmente pararam de pagar seus estudos. Porém, Nicholas será para o menino a chance de liberdade e uma nova vida.

Mas o destino reserva muitas surpresas até o final dessa jornada. De certa forma, tanto o livro quanto o filme são a história da formação do caráter de um menino se transformando em homem. Mas a principal temática acaba sendo o crescimento de uma pessoa que é obrigada a dissolver os laços familiares - Nicholas é forçado a abandonar mãe e irmã em Londres e partir em busca de sustento. Desde o começo da narrativa, fica claro que esta é uma bela ode à vida familiar. Mas nem por isso deixa de lado o humor e a graça. Aliás, um dos grandes atrativos do filme está em sua bem realizada reconstituição de época e direção de arte.

Essa não é a primeira incursão do diretor Douglas McGrath em produções do gênero. Ele estreou em 1996, com a bem sucedida adaptação de Emma, estrelada por Gwyneth Paltrow, baseada no romance de Jane Austen. Mas, se em seu primeiro filme ele fez uma comédia romântica mais intimista, aqui, mesmo não perdendo esse tom, investe mais no drama de seus personagens, que muitas vezes são oprimidos pela sociedade e fazem escolhas que não queriam.

Mesmo usando um estilo bem próximo do literário, com muitas narrações em off, O Herói da Família nunca perde o ritmo e o interesse, nem fica cansativo, principalmente porque o roteiro captura o humor e a vasta panorâmica dos tipos humanos desenvolvida por Dickens. E com a ajuda da bela trilha sonora de Rachel Portman, o longa resulta em pouco mais de duas horas que passam despercebidas.

Mesmo deixando de fora muitas digressões e tramas paralelas do livro original, o filme de McGrath torna-se obrigatório na filmografia baseada em Dickens. Bem mais acessível do que as nove horas da peça da Royal Shakespeare Company realizada em 1980 (disponível em DVD Região 1), este longa torna-se digno de figurar ao lado de outras obras-primas baseadas no mesmo escritor, como Grandes Esperanças (1946) e Oliver Twist (1948), ambos de David Lean. E quem sabe terão mais companhia em breve. O cineasta franco-polonês Roman Polanski prepara para o próximo ano uma nova adaptação de Oliver Twist.

Alysson Oliveira


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