Tróia

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Crítica Cineweb

10/05/2004

Foi dada a largada para a nova temporada de grandes épicos do cinema. O primeiro a desembarcar é Tróia. O filme tenta, de certa forma, reparar um grande erro de Hollywood. Ao contrário dos romanos, os gregos nunca tiveram muita vez no cinema americano. Mas agora isso será história, porque grandiosidade é o que não falta ao longa de quase três horas de duração. Porém, os resultados ainda estão bem aquém dos 185 milhões de dólares investidos no projeto. Não que seja ruim, mas de um orçamento tão grandioso, espera-se um filme melhor.

Se no cinema americano os gregos não apareceram muito, na Itália eles foram o assunto de vários filmes. No início dos anos 1960, o cinema italiano entrou em uma mania de Grécia Antiga produzindo diversos examplares de baixo orçamento. O mais conhecido foi A Guerra de Tróia, de Giorgio Ferroni, por ter um acurado senso histórico. Mas também há aqueles não tão bons que acabaram entrando para a história, como Guerra dos Troianos, de Giorgio Rivalta e Aquiles, de Mario Girolani. Em 1954, também foi rodado nos Estados Unidos Helena de Tróia, por Robert Wise, que apesar da versão americanizada apresenta algumas qualidades.

E, apesar de ser um dos primeiros épicos do novo século, Tróia ainda exibe os mesmos vícios dos filmes do mesmo gênero, tão comuns nos anos 1950. No lado positivo estão a ótima produção, incluindo pesquisas de figurinos, cenários, costumes da época. Há também cenas de batalhas coreografadas com precisão e encanto. Em comum com aqueles filmes também há atores famosos fazendo papéis grandiosos, de figuras míticas que já entraram no inconsciente coletivo. Porém, os problemas persistem. Os diálogos são vazios, esquemáticos, cheios de frases de efeito. O romance entre Helena e Páris, que acaba desencadeando a guerra, é frio e calculado, não transmite a menor paixão entre os personagens.

Marco-zero da literatura ocidental, A Ilíada, do poeta Homero, serviu de base e foi adaptada pelo roteirista e escritor David Bennioff (roteirista de A Última Noite e autor do livro original). A maior diferença entre o grande poema e o filme é a completa eliminação dos deuses da narrativa. Enquanto no texto antigo eles têm uma função importante, trançando o destino dos mortais, no filme sequer existem personificados. São apenas entidades adoradas pelos mortais, principalmente Apolo.

Dessa forma, Tróia é acima de tudo um filme de guerra, dando maior destaque para o herói Aquiles (Brad Pitt), que vê na fama a maior motivação para a guerra. Enquanto por um lado este espera ganhar as batalhas para entrar vitorioso para a história, Heitor (Eric Bana) é uma espécie de George W. Bush do bem no mundo antigo que não mede esforços para "defender o seu país", como ele mesmo diz.

No entanto, o grande calcanhar de Aquiles do filme está em Brad Pitt no papel do herói. Trocadilhos à parte, são poucos os atores que teriam força suficiente para tamanho desafio. Não que a culpa seja totalmente dele. Mas é que a câmera insiste em mostrá-lo glorioso. De tão forte e bronzeado que está acaba parecendo irreal, mesmo para um herói. Durante todo o filme não há sequer um fio de cabelo fora do lugar. Claro que tal estratagema não é por acaso. Um filme tão carregado de testosterona, com tanta batalha, não costuma atrair o público feminino ao cinema. Mas com Pitt tão fotogenicamente no papel de galã, acabará agrandando a gregas e troianas.

Com tanto verniz, e pouca substância, Aquiles é um personagem sem carisma, que não conquista a platéia. Por isso, Eric Bana - que deixa para trás um infortúnio em forma de personagem, que atende pelo nome de Hulk - acaba se sobresaindo no papel do príncipel Heitor, filho do rei de Tróia, Príamo (Peter O'Toole). Ele é um lider nato, jogado numa guerra que não começou, e obrigado a abandomar a mulher (a bela Saffron Burrows) e o filho pequeno. Bana consegue dar uma dimensão humana ao personagem que não tem outra opção a não ser defender seu país e a honra da família.

O'Toole, por sua vez, estava certo quando, no ano passado, ensaiou não receber o Oscar honorário, por dizer que tinha muitos filmes pela frente. E com certeza, se Tróia não é um grande trabalho, seu personagem é um dos melhores do longa. Em uma cena-chave, ao lado de Aquiles, o ator britânico mostra que tem muitas chances de conquistar um outro prêmio para guardar ao lado do honorário. Julie Christie faz uma pequena participação como Tétis, a mãe de Aquiles. O diretor Wolfgang Petersen declarou à revista Premiere que convidou Julie e O'Toole como uma forma de homeagear Davi Lean, um dos grandes cineastas de épicos, que fez Doutor Jivago, com a atriz, e Lawrence da Arábia, com o ator.

Quanto às mulheres, pouco lhes resta a fazer. Elas são relegadas não só à categoria de coadjuvantes, mas são praticamente acessórios. Saffron Burrows tem um papel bonito na pele de mulher de Heitor, mas sua participação é limitada e abaixo do potencial da atriz. A única que tem algum valor na narrativa é Helena de Tróia, interpretada pela alemã Diane Kruger, que faz juz à fama de "mulher mais bela da história", que seu personagem carrega.

Tecnicamente, o filme é irrepreensível. Não só pelas cenas e efeitos criados por computadores, como também pelos valores da produção. O destaque fica por conta da cenografia, criada inteiramente por Nigel Phelps. Como não existem imagens da cidade de Tróia, ou algo em que o cenografista pudesse se basear, ele fez um amálgama das arquiteturas grega, oriental e egípcia, que funciona muito bem e faz a cidade tão grandiosa quanto poderia realmente ter sido. Além disso, o famoso cavalo é colossal, belo e imponente, como manda a lenda. Porém, esse Seabiscuit de madeira surge do nada. Um dos momentos que seria mais interessante foi omitido. Não é mostrado como o cavalo foi construído.

Tróia nada mais é do que um presente de grego em uma bela embalagem. O filme é de encher aos olhos, mas falta algo para que entre para a história. Como todos os personagens e suas lendas já são conhecidos do grande público, não há nenhuma surpresa. É como se todos fossem ao cinema para ver se o professor de história não contou nenhuma mentira. E aparentemente não.

Alysson Oliveira


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