Pântano

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Mecha (Graciela Borges) e Gregorio (Martin Adejmian), cinqüentões decadentes e alcoólatras, contemplam o vazio de sua vida no seu sítio. Em torno deles, filhos e empregados entregam-se ao ócio, sob um calor sufocante. A prima de Mecha, a enfermeira Tali (Mercedes Moran) e o marido Rafael (Daniel Valenzuela) evitam o mais que podem o contato com os parentes, pensando em proteger seus filhos do ambiente doentio.


Extras

Legendas em português ou espanhol

som dolby 2.0

preço médio em sell-thru: R$ 29,90 (junho 2005)


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

03/05/2004

Lucrecia Martel estréia como roteirista e diretora em longa-metragem traçando uma estratégia de incômodo. Sua dura crônica familiar cutuca as pessoas no lado que dói, onde arde, onde suja, onde não se consegue esconder. Mas não distancia, ao contrário: puxa quem o vê para o pântano, tanto literal quanto metafórico da narrativa.

O espectador disposto a acompanhar esta vertigem fica estranhamente hipnotizado pelo sufoco que envolve duas famílias. A primeira, liderada pelo casal Mecha (Graciela Borges) e Gregorio (Martin Adejmian), cinqüentenários decadentes e alcoólatras, que contemplam o vazio absoluto de suas aspirações à beira de uma piscina de água escurecida, há muito não-limpa, no seu sítio, chamado La Mandragora. Em torno deles, amontoam-se os filhos, uns pré-adolescentes, outros já jovens, entorpecidos pelo calor, largados pelos quartos da casa, ou perseguindo pequenos animais no bosque próximo com rifles impróprios para as crianças que ainda são.

Estabelecido o vácuo moral e ideológico em que se situa a família - ilhada em sua propriedade pela mesma força irracional e irresistível que aprisionava os burgueses na igreja de O Anjo Exterminador, de Buñuel - não é difícil enxergar no clã o paradigma de uma Argentina atolada na crise econômica, na apatia social e política. Mas seria reducionista esgotar o filme apenas por esse aspecto.

A outra família, chefiada pela prima de Mecha, a enfermeira Tali (Mercedes Moran) e o marido Rafael (Daniel Valenzuela) evita o mais que pode o contato com o clã de La Mandragora. Rafael, especialmente, não quer expor seus filhos ao ambiente doentio em torno da prima da mulher. Engana-se, porém, ao achar que sua própria família está livre da doença que acomete os parentes - é apenas uma questão de grau de exposição, mas todos estão inevitavelmente contaminados. Inclusive pelo medo. Seu filho caçula, Luciano (Sebastian Montagna), vive assombrado por relatos sobre cães-ratazanas e fabrica suas próprias e aterradoras fantasias sobre o que está do outro lado da parede do vizinho.

Figuras quase totalmente ausentes do cinema argentino, as populações indígenas aqui dividem a cena com os descendentes de europeus, como os empregados da família burguesa a quem se atribuem roubos, preguiça, ignorância e todos os vícios. Numa situação, este conflito latente eclodirá em violência, mas esta não é a regra. Lucrecia Martel fala de pessoas sufocadas a ponto de explodir - mas que, em geral, apenas implodem.

Paralelamente, o relato nos noticiários de TV menciona as misteriosas aparições da Virgem Maria a fiéis que se multiplicam dia-a-dia. Nesse contexto sem esperanças, tudo o que parece viável é a procura de um milagre.

Com um retrato assim tão veemente de um momento de impasse na Argentina - o filme é de 2001, auge da crise econômica -, Lucrecia Martel firma seu nome como estreante das mais promissoras. Não foi por menos que seu segundo longa, La Niña Santa, foi selecionado para a competição do Festival de Cannes/2004. Ela é, igualmente, um dos argumentos de Walter Salles para afirmar que a Argentina faz hoje o melhor cinema jovem do mundo, superior mesmo, em sua opinião, ao festejado cinema asiático.

Neusa Barbosa


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