A Mulher do Lado

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Crítica Cineweb

08/01/2003

Não se sabe o que veio primeiro, a paixão do diretor François Truffaut pela atriz Fanny Ardant ou a história que ele tinha na cabeça sobre dois amantes a um passo da loucura, o tema deste filme belo e triste. Nunca se saberá, mas provavelmente os dois processos, o da paixão real por Fanny e a criação do roteiro, tenham sido simultâneos, porque Truffaut nunca soube muito bem onde começava a vida e acabava a ficção. Talvez porque, para ele, seus filmes e sua existência tenham sido praticamente uma coisa só.

Reestreando em cópia nova quase 20 anos depois de seu lançamento, A Mulher do Lado tem alguma coisa de réquiem. Foi o penúltimo trabalho de Truffaut, feito com seu último grande amor, Fanny. Essa urgência transpirou intuitivamente para o ritmo desesperado da história, muito embora o diretor ainda não tivesse como saber que morreria três anos depois, prematuramente aos 52 anos, vítima de câncer.

Se se quiser comparar a vida e a arte, é bem verdade que a paixão real de Truffaut e Fanny foi bem mais feliz do que a do filme. Ele a viu na televisão, quando ela atuava numa série que fez muito sucesso no inverno de 79 na França, Les Dames de la Côte. Foi uma "paixão televisiva à primeira vista", ele escreveria a ela, convidando-a para um primeiro contato profissional. Na época, o cineasta preparava-se para filmar O Último Metrô, que seria um grande sucesso, com Catherine Deneuve. Mas prometeu a Fanny que seu próximo filme seria dela. Cumpriu a promessa a lançou para o cinema.

No auge da beleza aos 32 anos, Fanny interpreta Mathilde Bauchard. Recuperando-se de uma grande desilusão amorosa do passado, ela se casa com um controlador de vôo bem mais velho do que ela, Philippe (Henri Garcin). O casal instala-se numa casa num pacato subúrbio de Grenoble. Mas, por ironia do destino, tornam-se vizinhos justamente do antigo amor de Mathilde, Bernard Coudray (Gérard Depardieu).

Também casado, pai de um menino, Bernard inquieta-se ao rever Mathilde. Entretanto, em público ambos fingem não se conhecer e fazem um pacto de silêncio sobre o passado, pensando que podem manter adormecido o amor que tanto estrago causou em suas vidas, anos atrás. Mas é inútil. A paixão represada ressurge com mais fúria ainda, arrastando os dois rumo à tragédia, sob o olhar compreensivo de uma amiga, a sra. Jouvet (Véronique Silver) - ela mesma sobrevivente de uma história de amor muito parecida.

É quase inacreditável que Truffaut tenha conseguido compor um trabalho assim intenso em apenas um mês e meio de filmagens, entre abril e maio de 81. A urgência decorreu da agenda sempre apertada do astro Depardieu mas era uma característica que agradava ao diretor. Ele gostava de filmar assim depressa, para manter a força emocional que sentia servir a histórias como esta. Alternando pinceladas suaves e fortes, ele deu testemunho de um estilo que sabia dizer tudo no tempo necessário, sem jamais cansar o público. Por isso, tantos anos depois, A Mulher do Lado permanece como um dos retratos mais precisos de todos os estágios de uma paixão, destrutiva sim, mas profundamente humana.

Neusa Barbosa


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