A Paixão de Cristo

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Sinopse

As últimas horas da vida de Jesus Cristo (Jim Caviezel) são mostradas com toda a riqueza dos detalhes mais cruéis, desde sua delação, captura, flagelação e crucificação.


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Crítica Cineweb

16/03/2004

A partir de A Paixão de Cristo, terceiro filme de Mel Gibson, é possível tirar diversas conclusões a respeito da fé. Especialmente sobre o tipo de fé que move o galã-diretor numa empreitada ostensiva, marqueteira e lucrativa como esta. Neste momento, só contando os números de 2004, passando dos US$ 600 milhões em todo o mundo.

Só incautos ou ingênuos acreditam que algum tipo de motivação religiosa terá movido Gibson. A estupenda máquina de divulgação (com o envio de milhares de DVDs a congregações religiosas antes da estréia), as polêmicas fabricadas (com a relutância em permitir que integrantes da comunidade judaica assistissem ao filme) e o anúncio (depois revogado) de que o filme, falado em aramaico e latim, seria lançado sem legendas não deixam dúvidas de que se preparou, aqui, um produto de marketing. Que tem suas qualidades, em termos de produção, mas não nega espaço a que se duvide de suas segundas intenções.

Independente de o espectador ser judeu, cristão, muçulmano, budista ou ateu, uma coisa é certa: Gibson promoveu um espetáculo embalado na estética do excesso e no voyeurismo da dor. Não há como ver de outra maneira a sua opção de deter-se sobre as últimas horas da vida de Cristo (Jim Caviezel) e colocar sua câmera em primeiros planos tão escancarados dos martírios físicos do filho de Deus nas mãos de seus algozes. Deixando que os ensinamentos do Cristo ocupem um espaço tão reduzido na tela, limitado a escassos flashbacks, o diretor não deixa dúvida de que sua agenda está em outro lugar que não o de propagar a sua palavra.

Saciando uma das falsas polêmicas em torno do filme - ele não é anti-semita. As culpas que se atribuem a alguns personagens judeus em torno da delação, captura, flagelação e morte do Cristo não são maiores do que as de diversos soldados romanos. E não faltam exemplos edificantes, nestes dois segmentos, de indivíduos que tentam sinceramente impedir o desenlace trágico. A chave maniqueísta em que se obriga todo o elenco a atuar não deixa oportunidade a que os dotes dos atores possam ser analisados profundamente. Ainda assim, escapam momentaneamente das amarras do simplismo algumas presenças magnéticas, como Maria (Maia Morgenstern), Madalena (Monica Bellucci), Judas (Luca Lionello) e Pedro (Francesco DeVito).

Resta discutir, e isso sim é o mais importante - por que Mel Gibson resolveu, a esta altura, filmar novamente a vida de Jesus Cristo? É mais fácil responder apontando tudo aquilo que o filme não apresenta. Em primeiro lugar, nenhuma visão nova. Não pretende, como pretendia A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorsese, colocar em pauta um Cristo mais humano, menos divino. Não pretende rediscutir a sacralidade da figura da Virgem Maria como intentou Jean-Luc Godard com Je Vous Salue Marie (1985). Não tem nem mesmo uma visão pop original, símbolo de sua época, como tinha o musical Jesus Cristo Superstar (1973), de Norman Jewison. Enfim, não atualiza nada nem repropõe coisa alguma.

O que sobra, então? A volta à tradição mais reacionária, que coloca toda a humanidade na posição de algoz daquele que veio para salvá-la, expondo a turba ignara à visão ultradetalhista de uma interminável série de tormentos físicos impostos a seu Salvador. Espectadores sensíveis devem ser cuidadosamente aconselhados a deixar de lado este filme. É preciso estômago de avestruz - ou de crítico de cinema - para aturar as seqüências insuportavelmente longas e reiteradas por um uso abusivo da câmera lenta, mostrando o espancamento de Jesus pelos soldados, capazes de deixá-lo com um olho inchado como um ovo e também de pendurá-lo de um barranco por meio de correntes (uma cena que a criativa imaginação de Gibson, co-roteirista, adicionou aos textos bíblicos, já que ali não se encontra). Logo depois, vem a seqüência, ainda mais longa, da flagelação com chibatas e chicotes com pontas metálicas, que esgarçam a carne de Jesus no limite do esfolamento. Não menos angustiante será a caminhada até o Gólgota, em que Jesus cai muito mais vezes do que diz a Bíblia, também - sempre em câmera lenta, algumas vezes, sendo atingido pela pesada cruz sobre ele.

Jorra sangue na tela, como num filme de ação, traindo o passado - quem sabe, a mentalidade - do diretor. O gran finale da crucificação será acrescido de todos os exageros de sadismo que Gibson e seu co-roteirista, Benedict Fitzgerald, puderam conceber, para expurgo dos pecadores - ou seja, primeiro plano detalhado dos imensos pregos entrando nas mãos, um dos braços esticado até quebrar, sangue jorrando (aliás, Cristo teria que ter o triplo de sangue de uma pessoa normal para verter tanto sangue). Arrematando a seqüência, os soldados ainda viram a cruz, com Cristo todo pregado nela, para bater a ponta dos pregos do lado de trás. Requinte cruel, desnecessário, repulsivo.

Por essa opção preferencial pelo excesso e negação da palavra é que não dá para acreditar mesmo em nenhum propósito religioso ou artístico de Gibson ao encenar esta história. Com sua encenação sanguinolenta e redundante, tudo o que ele quer é o primeiro lugar diante dos holofotes. E isso, indiscutivelmente, ele conseguiu.

Talvez a única "descoberta"que possa ser creditada a este filme seja uma só: o diabo (Rosalinda Celentano), quem diria, é andrógino. E pensar que passamos tantos séculos sem nos darmos conta disso.

Neusa Barbosa


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